Os sábios do Israel bíblico nos ensinaram a observar o mundo criado para aprender o modo de agir e viver que melhor se ajusta ao desejo mais original de Deus para a sua criação. Trata-se de compreender a ordem que cada coisa ocupa no mundo para se viver bem. Nesse sentido, os sábios são os que deram conta da tarefa de bem observar a realidade enquanto que os insensatos são os que taparam os olhos e ignoraram os ensinamentos divinos que o próprio mundo revela.

A presença da tecnologia na vida humana contemporânea é bastante significativa. Se por um lado essa presença pode ser usufruída para a melhoria da qualidade de vida, por outro ela pode significar o distanciamento humano do mundo concreto. A cada dia estamos mais absorvidos pelo virtual. O celular parece só não entrar conosco para debaixo do chuveiro, no restante das horas, ele está segurado por nossas mãos e diante dos nossos olhos. O mundo passa e as pessoas passam por nós sem nos darmos conta do que está acontecendo à nossa volta. Tudo ganha uma irremediável distância. 

Os encontros físicos cedem lugar aos virtuais, as rodas de música cedem lugar às playlist, as bonitas paisagens cedem sua beleza aos desenhos e outras produções gráficas. Nossos corpos ganham uma extensão desencarnada e só são reconhecidos pela fotografia que demoramos segundos para produzir na tentativa de realçar nosso melhor ângulo e expressão. Também nossos problemas e nossas lutas repercutem nesses ambientes de virtualidades, parecendo carecer de qualquer concretude que conduza às suas resoluções e ações.

É importante converter os olhos das telas virtuais para o mundo e para as pessoas que estão à nossa volta. Esse olhar deve vir acompanhado de uma reflexão. Esse movimento nos permite compreender o que se passa conosco, com o mundo e com as pessoas que estão ao nosso redor. Também é esse movimento que nos permite dizer: olhei e vi.

O poeta Belchior convida numa de suas canções: “vêde o pé de ypê, apenasmente flore, revolucionariamente, apenso ao pé da serra”. Uma das cenas mais lindas em Minas Gerais é a de um ipê solitário ao pé de alguma de nossas serras. A vegetação típica de cerrado nesse tempo frio e seco compõe a beleza desse acontecimento da natureza. Em Belo Horizonte não é diferente. Nossas ruas e avenidas desfilam ipês que nos arrancam do tédio, da solidão e do anonimato que a cidade ocasiona. E a cada encontro há espanto. É o belo nos chamando de volta para o mundo real. E isso não é jamais substituído pelas bonitas fotografias que compartilhamos nas redes sociais.

A mim, os ipês ensinam algumas coisas. Primeiro, há vida florindo em meio à secura das chuvas e o intenso frio dos dias. Segundo, a beleza é para todas as pessoas e não há ninguém que se deva negar a experiência de contemplação de um ipê. Terceiro, a beleza é revolucionária. E essa beleza é revolucionária porque ela escancara todo o mais que está a nossa volta e nem percebemos. Um ipê florido é exuberante e sua vida pulsa quando a vegetação seca alastra sinais de morte. É a vida informando que ela é muito forte e resiste às intempéries. Os ipês são pura resistência nesse inverno. E é essa resistência que revela a beleza disponibilizada para quem ousa tirar os olhos das telas e ver o que passa pela cidade.

O salmo 92 louva ao Senhor na esperança de que os justos floresçam diante dele, pulsem cheios de vida e deem frutos em abundância. Nesse sentido, porque não pensar que a justiça dos que creem deve florescer, tal como os ipês, diante da ressequidão do mundo de maldade e violência? Certamente, o florescimento dos justos também requererá muita resistência, porque são dias invernais para a vida do mundo nos quais os sinais da morte despontam sem timidez. Por isso, é preciso resistir à força violenta que domina os discursos e as ações. É preciso resistir insistindo na força da paz e do amor, esses que são os fundamentos de qualquer beleza necessariamente revolucionária.

*Tânia da Silva Mayer