Há três décadas, a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, captou a atenção do mundo inteiro. Este evento transformou de algum modo, a vida de centenas de pessoas. Pavel Miksu morava em Přerov na Tchecoslováquia, 600 km ao sul. Na época, tinha 14 anos

Jean Charles Putzolu – Banská Bystrica – Radio Vaticano

Com quase 50 anos, Pavel Miksu é um feliz pai de família. Mora em Brno, na República Tcheca, onde trabalha como jornalista. Da sua juventude, sob a opressão do regime comunista “tem más recordações”. Na cidade industrial de Přerov, na Morávia central, onde morava com seus pais, o Partido Comunista tinha grande apoio da população. “Éramos uma família católica e isso já era uma dificuldade. Os meus pais deviam sempre explicar a sua fé. Porque eram cristãos, porque eram praticantes…”. O regime não tolerava em a religião e só o fato de ser cristão era um obstáculo. A irmã de Pavel, por exemplo, não teve acesso à universidade. Seu pai, um engenheiro, mesmo com bons projetos científicos, nunca teve uma promoção na sua carreira. Durante 40 anos trabalhou sempre na mesma escrivaninha. “Em todas as empresas, em todas as escolas, havia os politruk, empregados encarregados de supervisionar os outros. Era o trabalho deles. Era oficial. Deviam garantir o predomínio das ideias do partido. Se alguém exprimisse uma ideia diferente logo encontrava problemas”. Pavel explica que os politruk impediram a muitas pessoas de levarem uma vida normal. Em particular muitos intelectuais. E também numerosos sacerdotes. Os membros da polícia secreta vigiavam constantemente as poucas igrejas que ficaram abertas. Para qualquer um, entrar em um lugar de culto podia ser fonte de problemas. Rezar era tolerado com restrições. Enquanto que exprimir a própria fé em público era severamente proibido. Enfrentar um problema social podia ser motivo de detenção. “A polícia secreta – recorda Pavel – fotografava e filmava todos os que ousavam praticar sua fé quando havia grandes encontros, como por exemplo, algumas peregrinações autorizadas”, recorda Pavel. 

9 de novembro de 1989, queda do Muro de Berlim

“Para a grande maioria da população, foi uma enorme surpresa. Mas para os que tinham a possibilidade de se manter minimamente informados, não foi exatamente assim, via-se um certo nervosismo na cúpula do Partido Comunista. Com efeito, os funcionários do partido, conscientes da situação, já tinham percebido os primeiros sinais. “Sabíamos que não teria durado muito”, disse Pavel. “Para mim – continua – mudou tudo, e imediatamente”. Na minha cabeça de adolescente, na época, sabia que não devia falar de política. Mas nunca me explicaram o porquê. Era assim. A minha família não poderia ser definida como dissidente. Porém, tive acesso a publicações ilegais e dava uma mão emdistribui-las. Algumas vezes comprava grande quantidade de papel para imprimir fascículos. E isso era suficiente para chamar a atenção da polícia secreta”.

Até os sete, oito anos, Pavel tinha certeza que, depois de adulto, seria preso pelas suas ideias ou pela sua fé. Mas no dia 9 de novembro de 1989, em um piscar de olhos, seu medo desapareceu. Com exceção dos apoiadores do regime qu estava se desmoronando a 600 quilômetros de distância, a maior parte da população estava em um estado de euforia coletiva, que duraria por quase quatro anos. “Foi um período como nenhum outro vivido antes e depois”, disse Pavel.

Nestes quatro anos de entusiasmo ocorreram a demissão de todos os líderes comunistas tchecoslovacos, a modificação da Constituição para abolir o predomínio do Partido Comunista, a eleição do escritor e dissidente Vaclav Havel como presidente do país e a “revolução de veludo”, ou seja, o nascimento das duas repúblicas, a Tcheca e a Eslovaca.

Todavia, depois de quatro anos, a euforia deu lugar a um outro sentimento: “As pessoas se deram conta que a liberdade não é tão fácil”, disse Pavel. A passagem de uma economia planificada centralizada a uma economia de mercado foi muito complicada: “O poder político se transformou em poder econômico”.

Panorama de Přerov, cidade da Morávia central

Os primeiros passos para o Ocidente

Este período histórico acompanha a adolescência de Pavel e o seu percurso escolar, mas também é ocasião das suas primeiras viagens. Pela primeira vez na sua vida pode ir ao exterior, de ônibus, atravessando a Áustria até chegar à Itália. Seus olhos “devoram” as novas paisagens e descobre o estilo de vida “ocidental”. “Podem rir”, nos diz, “mas foi a primeira vez que vi banheiros públicos limpos na estrada. Era impensável no nosso país, era tudo sujo, feio. Este é um exemplo dos países totalitários, para eles a beleza não precisa estar presente nos espaços públicos”.

Aos 15 anos Pavel chega a Roma, e vai visitar os túmulos dos primeiros mártires. “Senti a ligação entre estes mártires da Igreja primitiva com os nossos mártires. Era extremamente forte”. Na Praça São Pedro segue o Angelus do Papa João Paulo II, o Papa que ele sabia que tinha feito muito pela liberdade dos cristãos do leste. De fato, na sua pátria, a Rádio Vaticano cujas frequências muitas vezes tinham interferências, chegava a voz do Papa e uma outra visão do mundo.

“Via os telejornais muito estruturados da televisão tcheca e depois de meia hora ouvia as rádios ocidentais. Assim podíamos saber como tinham realmente acontecido as coisas. Estávamos tão treinados em fazer este exercício, que com o tempo, só ouvindo a televisão tcheca do regime conseguíamos saber qual seria a realidade. Achávamos quase cômico”.

Uma Missa para se reunir

Poucos meses depois da sua volta à pátria, um amigo anunciava a Pavel que os eslovacos queriam se separar. “Chegamos a chorar, porque não entendíamos, aos 16 anos, porque queriam dividir o nosso país em duas partes”. Na época, muitos tchecos moravam na Eslováquia e vice-versa. “Rezei muito para que essa separação ocorresse sem violência”, recorda Pavel, que na noite entre 31 de dezembro de 1992 e 1º de janeiro de 1993, data oficial da separação, encontrava-se em Viena, na Áustria, para o Encontro anual da Comunidade Taizé. “Ficamos separados também durante a vigília de oração em Viena”, diz, “os tchecos de um lado e os eslovacos de outra. Mas foram muitos os que pediam aos organizadores para que ficássemos juntos. Explicamos que ali não faríamos nenhuma guerra!”.  

À meia noite, com os frades de Taizé, no mesmo momento da divisão tchecoslovaca, foi celebrada uma Missa centralizada em uma mensagem muito forte: “Dissemo-nos todos que, mesmo separados politicamente, seríamos amigos para sempre”. 

Por fim, um muro a ser derrubado

Quando se cresce em regime totalitário, talvez uma das coisas mais difíceis seja se abrir aos outros. Entre os familiares, a palavra era livre, algumas vezes também com amigos mais íntimos. Porém, fora deste grupo limitado, Pavel continuava mudo. “Durante toda a minha infância, tive a sensação de ter um muro na cabeça”, nos conta. E também depois de 1989, aquele muro invisível ainda estava ali: “Acontecia com frequência cruzar com ex-membros da polícia secreta pelas ruas, ou nas lojas”. Também era comum ver nas ruas os ex-líderes locais do regime comunista.

Portanto Pavel não consegue se livrar de uma enganosa percepção da autoridade. É livre desde novembro de 1989 e isso é um fato. Mas ainda persiste a prisão interior da qual deve se libertar, uma prisão que bloqueia qualquer iniciativa. “Um dia – conta – fui rezar em uma antiga abadia do século XIII. Estava praticamente sozinho, e de improviso, sem saber realmente o porquê, comecei a chorar. Sentia minha voz interior dizer-me que devia perdoar. Dizia a mim mesmo que devia perdoar todos os que tinham feito mal à minha família”. Pavel abaixa a cabeça e bate no peito: “Perdão, perdão, perdão”. Levanta o olhar e prossegue: “Foi então que me senti livre, quando entendi que devia perdoar”. Naquele dia, finalmente, diz com os olhos brilhantes, “o muro que havia na minha cabeça caiu”.