O serviço à comunidade deve surgir de uma extrema vontade de ajudar os irmãos e irmãs a caminhar ao encontro de Deus. Porém pode parecer difícil que esse encontro chegue realmente a Deus, que seja uma caminhada impossível. Porém onde encontramos verdadeiramente Deus?

Por Daniel Couto: Publicado originalmente em Dom Total

Quando pensamos em Deus imaginamos sua forma poderosa, o grande criador que está no céu e tudo coordena e dirige. Porém, deixamos de perceber que sua presença se dá quando, em comunidade, celebramos o seu grande mistério. É comum tratarmos a nossa relação com Deus de forma mágica e, em certo ponto, até adotamos uma postura esotérica (pouco compreensível aos mortais, obscura, distante e mágica). Mas a relação de Deus com seu povo sempre foi comunitária, revelada ao povo escolhido, não por méritos ou por privilégio, mas porque deveriam ser luz para outros povos. A experiência nunca é individual e particular, pois a essência do cristianismo é o amor, e esse se manifesta quando nos relacionamos uns com os outros.

Se nossa relação com Deus é comunitária, o lugar para que essa experiência aconteça é a comunidade de fé. Por mais que queiramos individualizar nossa “experiência de fé”, ela se torna egoísta e frágil quando depende apenas do nosso querer e do nosso “ponto de vista”. A comunidade de fé nos ajuda a caminhar, amadurecer, crescer, errar e superar as realidades do mundo. Esse convívio fraterno é que desponta no mundo como luz para os povos, pois caminhamos na “contra corrente” dos ideais apontados pela sociedade atual, o que nos chama a uma estrada árdua que muitas vezes entra em conflito com nossas vontades e desejos.

É nessa estrada então que decidimos assumir nossa responsabilidade. Uma vez que a comunidade é o lugar de encontro com Deus, assumindo o compromisso com essa comunidade estou também assumindo o compromisso com a experiência reveladora de Deus. Eu – ao assumir um serviço ou ministério – me insiro ativamente no processo de construção do Reino de Deus assim como sonhado e pregado por Jesus.

Quando colocamos nossos dons e nosso trabalho à disposição da comunidade é que o Cristo pode chegar àqueles que necessitam. É através dos fiéis que se disponibilizam em prol do Reino, que este se torna possível na terra e que a presença amorosa de Jesus chega aonde é necessária. Precisamos compreender que o serviço e/ou ministério não é nosso, mas sim da igreja – enquanto comunidade de fé – e, portanto, não podemos vive-lo como queremos, mas sim, como é orientado por nossa vivência comunitária. O ministério é como um pequeno núcleo familiar, onde, partilhando um serviço em comum, podemos fazer com que os outros também se encantem pela beleza do amor do Cristo.

É na comunidade de fé que semeamos e colhemos, que preparamos a terra e a habitamos, que reconhecemos nossos erros e nos redimimos. Na comunidade celebramos o mistério pascal de Cristo e fazemos com que a Palavra se torne carne, habite em nosso meio e se torne guia para os povos. Em nosso convívio comunitário fazemos, cotidianamente, a experiência da encarnação, vida, paixão, morte e ressurreição. Trazemos em nosso meio a pascoa como o guia para plenamente assumirmos nossa humanidade, nos unindo àquele que nos ensinou a ser homens.

Quando percebemos que a comunidade é casa de todos, e assumimos essa pertença encarnando a missão de batizados, fazemos de nossa experiência de fé muito mais do que mera superficialidade. Passamos a enxergar a vida e a igreja com outros olhos, com um olhar fraterno e humano, que nos liberta do esoterismo e nos ajuda a entender o que é o amor ensinado por Jesus Cristo.

Enfim, precisamos de uma consciência de irmãos para entender o verdadeiro significado da Igreja e também a autêntica fé em Jesus Cristo. A experiência comunitária é condição imprescindível para que possamos nos dizer cristãos, afinal, foi através dessa mesma vivência que Jesus ensinou aos discípulos e que seus ensinamentos chegaram até nós. É necessário entendermos que a fé é uma experiência coletiva e que abrir mão de nossas vaidades e “certezas” em nome da autêntica vivência comunitária é o primeiro passo para o Reino de Deus. Reino este que se concretiza quando os filhos e filhas assumem o seu papel dando o seu “sim” para a experiência do serviço aos irmãos.

*Daniel Couto é mestrando em filosofia, bolsista da Fapemig e membro da rede de animação litúrgica Celebra.