Saber esperar é um princípio da sabedoria capaz de evitar a precipitação de processos, a desorganização das dinâmicas e prejuízos irreversíveis. Esse princípio da sabedoria equilibra a condição emocional, cura a ansiedade que, além de adoecer, induz a escolhas equivocadas. O exercício existencial de saber esperar inscreve-se na dinâmica psíquico-emocional, requer balizamentos para a garantia de sua conquista. Conduz ao equilíbrio indispensável para as relações interpessoais, no horizonte complexo de decisões que impactam a vida. Assim, saber esperar é um dom necessário para se organizar a sociedade sob os parâmetros do viver fraterno e solidário. Saber esperar conta, de modo determinante, na composição de dinâmicas e marcos civilizatórios, direcionando a sociedade contemporânea na superação de sua incompetência humanística, que configura descompassos irracionais e injustiças.

Por não saber esperar, as pessoas e a sociedade sofrem com fracassos e encontram dificuldades para experimentar a vida como dom inquestionável. Cultivar essa capacidade não é simples. Requer engajamento em processos educativos capazes de consolidar, nas dimensões psíquica e moral, valores e princípios indispensáveis para uma conduta humana nobre, instrumento para a edificação em contraponto a todo tipo de irracionalidades. Mas, em vez dessa necessária qualificação para o exercício da paciência, alarma constatar que as dinâmicas contemporâneas desenvolvem nos cidadãos a incapacidade para saber esperar. A velocidade dos avanços tecnológicos, com o crescente uso de dispositivos eletrônicos para se comunicar, tem contribuído para acentuar essa incapacidade.

A impaciência crescente inviabiliza diálogos e compromete a necessária escuta construtiva, atitude que tece relações humanas e recompõe entendimentos. Por não saber esperar, torna-se cada vez mais comum o comprometimento da civilidade básica, com atitudes balizadas por indiferenças, falta de acolhimento e insensibilidade. A impaciência compromete até mesmo o respeito à boa educação. Esses sérios comprometimentos no conjunto da vida atual, pela falta de paciência, têm, no tempo litúrgico do Advento, vivido pela Igreja Católica em preparação para acolher o Salvador Jesus Cristo, em seu Natal, as dinâmicas que ensinam o coração humano a esperar.

A grande tônica do tempo do Advento é a espera confiante, não emoldurada pela ansiedade, a partir da experiência de se fixar o olhar na pessoa de Jesus Cristo. Trata-se de um exercício de fé que qualifica expectativas e leva a escolhas acertadas, diante dos muitos anseios que efervescem no íntimo de cada ser humano. Saber esperar requer o assentar-se em uma esperança que seja fidedigna. Não se trata de uma aposta “no escuro” ou simplesmente reduzir aquilo que se busca a parâmetros medíocres. Em vez disso, é cultivar a força para enfrentar o tempo presente e avançar até que sejam alcançadas as metas almejadas, sem se deixar abater pelo cansaço do percurso, livrando-se do perigo dos imediatismos e criando as resiliências necessárias para lidar com dissabores, imprevistos.

O segredo para cultivar a paciência é ter sabedoria para bem definir sobre qual esperança se assenta o viver.  É arriscado e perigoso cultivar uma esperança construída sob a hegemonia perversa da idolatria do dinheiro, que alimenta o desejo de apenas acumular posses, riquezas, e resulta em uma felicidade efêmera, que se dilui com o tempo, nas circunstâncias finitas da existência humana. O tempo do Advento permite, a partir de suas celebrações e pedagogia próprias, o enraizamento de uma esperança fidedigna: a oportunidade do encontro com a pessoa de Jesus Cristo. O Mestre vem ao encontro de todos. Acolhê-Lo na centralidade do viver é a providência para perenizar a fonte de uma autêntica capacidade de saber esperar. Permite a cada pessoa conduzir a vida reconhecendo-a como dom.

O tempo do Advento – com a interpelação da Palavra de Deus, na sua beleza, a sensibilizadora liturgia celebrada – pode corrigir a habitual teimosia de se depositar esperança equivocadamente naquilo e naqueles que não podem garantir fontes de fidedigna esperança. A indicação é simples, o desafio existencial é enorme e o resultado é transformador ao se vivenciar a proposta do Advento, pela experiência do encontro e do conhecimento de uma pessoa que muda vidas, dando a elas seu sentido verdadeiro e fortalecendo a capacidade de saber esperar para bem viver. Conhecida esta Pessoa, Jesus Cristo, compreende-se que não são os elementos do cosmo ou as leis da matéria que regem o mundo e o homem, mas Deus, que governa o universo. É reconhecido um largo horizonte, com a estrela de uma esperança fidedigna que aponta o rumo a ser seguido. Aprende-se a esperar, vencendo ansiedades. E, mesmo diante de tropeços ou acontecimentos adversos, a alegria de viver permanece sempre.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)