II. RECURSOS TÉCNICOS E LITURGIA

A introdução de recursos técnicos na celebração não começou com os projetores multimídia. É difícil saber quando, mas já faz tempo que se vê a lâmpada do sacrário imitar a chama de uma vela. De longa data se assiste a uma dificuldade comum: a adequada amplificação do som (microfones e afins), por exemplo. Muitas celebrações do matrimônio são ainda acompanhadas por músicas de um CD, e há testemunhos de aspersão e até de batismo com borrifador de água. Os projetores multimídia são os mais recentes aparatos técnicos introduzidos na liturgia, depois de longa lista que o antecede.

1. Uma compreensão da técnica

Umberto Galimberti, em sua obra Os mitos do nosso tempo (GALIMBERTI, 2009, p. 207-227), propõe uma abordagem sobre a técnica. Seu tratado, orientado para o problema político e, sobretudo, ético, serve também ao contexto litúrgico, enquanto demonstra uma “mutação antropológica” que ocorreu a partir da Segunda Guerra Mundial.

1.1. Natureza, ciência e técnica

Pensar a técnica significa entender a cosmovisão da qual nasce a ciência. Enquanto os gregos contemplavam a natureza como imutável, a tradição bíblico-cristã a concebia como dom divino a ser dominado.[5] Aqueles observavam a natureza para captar suas constantes e dela retirar os “modelos” para a vida; na tradição posterior, ela era modificada como resposta ao mandato divino (Ibid., p. 209-212). Foi a cosmovisão bíblica e cristã que se tornou a base para o nascimento da ciência. Por causa da sua ascendência cristã, contrariamente aos gregos, a ciência não extrai nenhuma constante da natureza, mas a submete à comprovação das hipóteses que propõe e busca, por sua raiz religiosa, minimizar os efeitos do pecado original: a dor e o trabalho (Ibid., p. 214). A ciência é o aprofundamento do domínio humano sobre a natureza. Porém sua relação com a técnica é essencial e não instrumental. A ciência tem intenção técnica e funciona tecnicamente. Sem a técnica não haveria ciência. E a técnica não contempla o mundo, mas o transforma.

1.2. A era da técnica e seus efeitos políticos e morais

Em sentido qualitativo, a técnica se torna finalidade e deixa de ser meio quando passa a se afirmar de modo quantitativo, condição absoluta para atingir os “supostos fins” desejados pela humanidade. Deixa de ser meio para ser fim (Ibid., p. 215-216). Essa alteração de “lugar” significou uma virada antropológica, pois o ser humano, enquanto técnico, passa a desconsiderar os efeitos de suas ações, concentrando-se na ciência, que passa a ser finalidade. Mas, ao assumir esta inversão, ele dá seu lugar de sujeito à técnica, tornando-se o seu “funcionário” e executor. Nas decisões “políticas” prevalecem os interesses econômicos, que, por sua vez, dependem da técnica (Ibid., p. 217-219).

No primado da técnica, sabe-se bem como fazer as coisas, porém se negligencia a questão sobre o dever ou não realizar – tarefa que era exercida pela política, chamada por Platão de “técnica régia”. Tem poder quem sabe tecnicamente, e isso significa uma “diminuição” da democracia, pois os novos problemas da humanidade são acompanhados por tamanha sofisticação da técnica, que mantêm reféns a maioria dos não entendidos. Basta lembrar as questões ligadas aos alimentos transgênicos, ao mundo da biologia, da física quântica ou da genética…

Em relação à ética, o problema não é menor (Ibid., p. 219-223). Os modelos éticos não fazem frente à técnica: a moral cristã (de intenções), a moral laica kantiana (humano-finalista) e a moral weberiana (da responsabilidade). No caso da moral de intenções, o exemplo da bomba atômica faz compreender sua fragilidade: a fissura dos átomos foi uma descoberta científica completamente desprovida de intenções, embora tenha resultado em fonte de energia, mas também em megadestruição. A moral humano-finalista, por sua vez, nunca se realizou, pois, uma vez invertido o lugar da técnica, o ser humano, por essa moral proclamado como fim absoluto, o deixou de ser. Passou a ser valorizado somente enquanto produz (funcionário de um aparato técnico). A moral da responsabilidade não fez frente à técnica, pois esta não tem “pretensões finalísticas”. Se uma pesquisa científica ou recurso técnico geram ulteriores problemas morais, pouco ou nada interessa à técnica, que continua seu percurso. Uma vez parte da engrenagem, o ser humano já não responde pelas consequências daquilo que a técnica produziu.

1.3. Autopotencialização e autolegitimação

Destas demonstrações segue que a técnica se tornou absolutamente desvinculada de qualquer finalidade, em processo de “autopotencialização”. Nesse contexto se opera uma mutação antropológica caracterizada pela distinção entre o agir e o fazer. O agir leva em conta a finalidade, o objetivo, a meta. O fazer busca meramente executar uma ordem, sem qualquer preocupação com sua finalidade; portanto, sem responsabilidade. Valem apenas a competência e a eficiência. O trabalho, enquanto valor, passa a ter sentido dúbio, pois a responsabilidade se limita apenas à boa execução das ordens. Exemplo claro é o operário de uma fábrica de armamentos. Outros exemplos éticos de desvinculação em relação à finalidade: questionado sobre suas motivações ao lançar a bomba atômica sobre Hiroshima, o piloto norte-americano respondeu: “Nenhuma, aquele era o meu trabalho”. Igualmente, o oficial nazista, ao ser questionado sobre o sentimento que experimentava ao exterminar milhares de judeus, respondeu: “Funcionava. E, a partir do momento que funcionava, era irreversível. Executá-lo era o meu trabalho” (Ibid., p. 224). A técnica concede isenção de responsabilidade ao ser humano, pois este já não é sujeito, mas seu funcionário. Ele já não age, ele faz. O sujeito da história já não é o ser humano, mas a técnica.

1.4. Mudanças no ser humano

A mutação antropológica implica dizer que o pensar e o sentir também se alteram. No âmbito do pensamento mudam as referências: já não têm valor o gratuito, o lúdico, o belo, o justo etc. A arte só tem sentido enquanto instrumentalizada, manipulada, vendável. Importa o que for útil, vantajoso, calculável, lucrativo, eficiente e apto. E, no caso da técnica, não interessa o que é bom ou mau, mas o seu uso, em sentido absoluto. No âmbito do sentimento nasce a indiferença: a técnica amplia as fronteiras; o campo de visão e o conhecimento humano se expandem. Com esta ampliação e expansão, a indiferença nasce da própria sensação de impotência. Exemplo: chora-se a perda de entes queridos, vizinhos e amigos, enquanto a mortandade de crianças famintas no mundo, no máximo, é lamentada. Em termos de sentimento, não ultrapassará o dado estatístico (Ibid., p. 225-227).