III. APLICAÇÃO AO CONTEXTO LITÚRGICO

O pensamento de Galimberti, discutível como qualquer outro, oferece pistas para entender a questão da técnica no interior das nossas celebrações. Como foi acenado, o autor opta por aplicar sua reflexão ao campo da ética e da política. Entretanto, deixa uma abertura a outras realidades humanas quando fala de “mutação antropológica” (Ibid., p. 217). Isto nos permite transpor sua reflexão para o campo da liturgia, no qual o dado antropológico não divergirá, pois é o mesmo ser humano que celebra.

1.Motivações e justificativas inconsistentes

Na nota da CNBB, a reflexão sobre o uso, na liturgia, dos aparatos técnicos e dos projetores multimídia vem acompanhada de algumas justificativas por parte das comunidades: econômicas, ecológicas, funcionais e pastorais (n. 4). Tais justificativas têm convencido muitas comunidades a optar pela aquisição desses aparelhos, por modismo, concorrência ou desejo sincero de melhorar a comunicação na liturgia.

1.1. Primeira falácia: preocupação ecológica

O problema ecológico, do ponto de vista ético, é preocupante. No entanto, a preocupação ecológica mundial é bem mais ampla que o simples uso de folhetos de canto nas celebrações.[6] Em relação ao consumo de papel, o Brasil é considerado um pequeno consumidor diante de nações como os EUA, que quintuplicam as taxas brasileiras. A legislação pesada sobre o setor envolve também a preocupação ecológica, pois a produção de celulose supõe o uso de produtos químicos e a produção de dejetos que prejudicam o meio ambiente. O quadro é de alta complexidade, porque também técnico.[7] De qualquer modo, na simplicidade das celebrações, as comunidades que nada entendem disso não podem responder significativamente ao problema nem se contrapor a essa argumentação. Ainda que a motivação se afirme sob o viés ético, a mesma lógica deveria ser aplicada aos “santinhos”, aos demais folhetos, à catequese e às demais pastorais, o que também não se verifica. Além do que, ecologia não se faz só poupando papel. Diante disso, pode-se perguntar: que outras iniciativas são tomadas concretamente para efetiva educação ecológica, mudança de hábitos e mentalidades em favor do meio ambiente, nas paróquias e comunidades? Ou seja, o apelo ecológico é bonito, politicamente correto e é capaz de convencer as pessoas conscientes. Mas tal postura não será uma falácia, um argumento aparentemente impoluto que esconde outras intenções – no caso, a de que implantação do projetor multimídia poderia trazer status de modernidade a uma comunidade?

1.2. Segunda falácia: o projetor multimídia é mais econômico

A questão econômica, que verdadeiramente pesa mais na decisão de utilizar o projetor, é também questionável. O aparelho não é barato e exige acessórios (telão, lâmpadas, peças de reposição, energia) e manutenção (instalação, regulação, consertos). Entretanto, no caso da técnica, como nos alerta Galimberti, o problema real é sua autopotencialização; ou seja, o projetor multimídia é somente a última vedete do mercado a estrear em nossas celebrações. Precederam-lhe o retroprojetor, o projetor de slides… Sucederão novas gerações e modelos, bem como novos aparelhos com tecnologia mais avançada e atrativa. Um exemplo de autopotencialização: as primeiras gerações de projetores não podiam ser utilizadas durante o dia, pois a claridade dificultava a visão das imagens projetadas. Para isso foram criados novos aparelhos com lâmpadas e lentes mais potentes, capazes de projetar imagens também durante o dia. Assim, de modo sucessivo, novas “soluções” exigirão novas substituições e, com isso, novos gastos. A anunciada economia não se comprovará. Mas, talvez, como argumento falacioso continue a convencer.

1.3. Terceira falácia: praticidade e eficiência

É próprio da técnica o discurso da prática e eficiência. Mas estas, em termos relacionais, causam prejuízos. A técnica, que tende à substituição ou à precariedade da dimensão interpessoal da vida humana, substitui a relação ou a suprime quando assume o lugar do sujeito. Exemplo: quem vê missa pela TV não participa de uma celebração, mas assiste.[8] É de fato prático: não ter de ir à igreja, associar uma atividade doméstica ao programa televisivo… O projetor é também prático e eficiente: já não se precisará de um ministério que acolha as pessoas à porta, ainda que seja para entregar um papel e aproveitar a ocasião para olhar nos olhos de um fiel anônimo.[9] “Um trabalho a menos!”, dir-se-á, insinuando uma solução. Também uma oportunidade a menos para um encontro, um contato, uma palavra. Excluídos os papéis, todos terão os olhos fixos numa parede lateral da igreja ou num telão. Passa a procissão de abertura, que não vai ser acompanhada, porque os fiéis têm sua atenção presa na projeção. A expressão significativa (procissão) que visibiliza a Igreja (intercomunhão solidária), como povo de Deus ordenado e a caminho da Páscoa definitiva (fato valorizado), se perde.

Diminui-se a sacramentalidade e, igualmente, a participação. No exemplo, não se estabeleceu a conexão entre o cantar e o entrar em procissão. A comunidade que canta – e assim anuncia o mistério da convocação divina e a resposta do povo que a caracteriza – não se reconhece no corpo ministerial que adentra com o canto de abertura. Ela não se vê, pois está desconectada do rito, graças à projeção. O “espelho ritual” da procissão, do beijo reverente do altar, do incenso laudativo que marca o início da celebração se perde, como se fosse mera formalidade. Desmantela-se o rito, desfazem-se os vínculos, prejudica-se a sacramentalidade. A eficiência e a praticidade suplantam a relação. O ator da celebração já não é o povo reunido, mas o projetor, no qual a assembleia fixa, servil e atentamente, o olhar. A motivação prática é um argumento profundamente técnico: não tem em vista os resultados, mas a eficiência; sem papel, sem gastos, prático, como anuncia a motivação. Porém desvia o olhar do que precisa ser realmente considerado em termos litúrgicos: a participação plena do povo de Deus e a sacramentalidade da liturgia.

1.4. Quarta falácia: preocupação pastoral

Por fim, a motivação pastoral. O argumento em torno da participação é também falacioso. Ao se tornar o polo das atenções e assim enfraquecer os ritos, o projetor se torna um elemento intruso no contexto litúrgico, pois tira a participação do seu foco fundamental, o mistério de Cristo, realizado pelos ritos e símbolos da Igreja. Ele liberta os fiéis dos papéis, mas os imobiliza diante de si, subtraindo o povo celebrante do jogo ritual. O “agir litúrgico” é substituído pelo “fazer técnico”. Canta-se sem papel, mas fica-se desligado do rito e da celebração em seu conjunto. O canto perde sua função: será executado como finalidade absoluta, sem remeter ao conjunto celebrativo, aos demais ritos, com seus componentes espaciais e temporais fundamentais para a experiência do mistério na celebração. A comunidade isentada da relação ritual pelo projetor verá diminuída a maior conquista do Vaticano II na liturgia: a participação plena dos fiéis na celebração, enquanto seu direito e dever (cf. SC 14).

Sem finalidade outra, a técnica conflita com a sacramentalidade da liturgia, pois não é sinal de nada, a não ser de si mesma.[10] Não entra no jogo ritual, mas se constitui como um “aparte”, estranho e imponente na celebração. Seu caráter científico, eminentemente voltado para as coisas do mundo que deseja transformar, não revela o mistério (fato valorizado). Antes, dificulta sua emergência nas ações litúrgicas, pois destrói a relação (intercomunhão solidária), desfigurando os ritos e símbolos (expressão significativa) e a intrínseca ligação entre esses elementos.

A liturgia não é técnica. É sacramental. Pertence à ordem da contemplação, do inútil, do belo, do jogo e do lúdico. Não é finalista em sentido positivo, da produção, do conhecimento, da utilidade, mas está orientada para o alto, para o infinito, para o essencial e fundamental da vida cristã que a técnica e seus aparatos não viabilizam.[11]

Conclusão

            A nota da CNBB é bastante completa e clara a respeito do uso do projetor multimídia. Neste artigo, buscou-se ampliar o foco da problemática, pela análise da técnica como um todo, a fim de compreender a sua natureza e a sua relação com o ser humano e com a liturgia. Doutra parte, delineou-se o que o texto da CNBB insinua quando fala da presença e ação de Cristo nos sinais e ministérios da celebração, a sacramentalidade da liturgia em sua relação com a participação.

Seguem algumas proposições, em sentido pastoral, que podem apontar algumas vias de solução. Também aqui se intenta oferecer um aprofundamento da prática litúrgica, de modo refletido e crítico. A intenção é fomentar o diálogo e aprofundar a questão.

–        Aprofundar a linguagem simbólica e ritual da liturgia. A introdução de aparatos técnicos, que, em muitos casos, têm se valido de imagens ilustrativas da celebração (última ceia, pão sendo partido etc.), pode ser indício de uma depauperação dos sinais litúrgicos. Que o pão pareça realmente pão, que o acesso ao vinho seja para todos, que a aspersão seja sensível, que o círio não seja um cano PVC decorado ou as flores sejam de plástico. Recuperar a força da dimensão simbólica pode ajudar a não recorrer aos artifícios da técnica.

–        Assumir com maior empenho e convicção o Hinário Litúrgico da CNBB e seu repertório. A tolerância pastoral com os grupos que não querem assumir o repertório litúrgico não deixa a comunidade refém de uma postura inflexível ou pouco atenta ao serviço que a liturgia requer?

–        Oferecer a publicação, em caráter mais definitivo, dos cantos litúrgicos. Há anos foram publicados os Hinários Litúrgicos da CNBB e gravados os CDs, em sua maioria. Mas até o momento não surgiu para o fiel nenhum manual com esse repertório, senão aqueles produzidos por paróquias e dioceses, com não poucas dificuldades financeiras e de assimilação. O manual (hinário para o povo) não subtrai a mobilidade das pessoas, permitindo que estas acompanhem os cantos e ritos simultaneamente.

–        Investir na formação litúrgica dos ministérios leigos e ordenados. Os ministérios litúrgicos – todos – necessitam de formação, atualização e aprofundamento, também em relação aos meios técnicos. Que serviço presta um ministro da acolhida? Como melhorar nossas homilias? O que se canta e o que não se canta numa celebração da liturgia? Como melhorar a proclamação da Palavra e as orações dos ritos?

–        Aguçar a consciência da sacramentalidade da liturgia. Esse é o caminho seguro para que as celebrações não se transformem ou em um ritualismo formal e vazio, ou em um espetáculo de novidades e arbitrariedades. Isso também ajudaria a exorcizar os aparatos técnicos que não correspondem à natureza sacramental das celebrações.

–        Valorizar e integrar o aspecto ecológico nas celebrações. Os novos projetos e reformas de igreja levam em conta o aspecto ecológico e sua relação com o meio ambiente? As equipes de liturgia estão sensíveis ao problema ecológico na preparação das celebrações? Como aprofundar essa relação e realmente trazer à tona um problema atual, também ético e religioso?

–        Redescobrir o valor do espaço celebrativo, como espaço simbólico e ritual. Lugar da contemplação, da beleza, do sentir-se Igreja, filho de Deus em sua dignidade batismal e sacerdotal. A funcionalidade do espaço tem em vista a ação litúrgica. Este critério não pode ceder seu “lugar fundamental” a problemas de outra ordem, mesmo que importantes e que possam ser considerados. Espaço belo, bem planejado, orientado para o mistério de Cristo e da Igreja não significa necessariamente espaço caro e inacessível às comunidades carentes.

–        Na liturgia, aprofundar a função e a relação dos aparatos técnicos que não se contrapõem à participação dos fiéis e à sacramentalidade. Exemplos: a amplificação do som é necessária nas celebrações. Mas em todos os contextos? Existem situações que reclamam outro tipo de soluções?

–        Que tipo de iluminação estamos escolhendo para as igrejas? Quando necessário, o aparato introduzido recebe a atenção devida, desde sua aquisição, instalação, manejo e adaptação até o seu uso no contexto celebrativo?

–        Ter cuidado ao aplicar à liturgia aparatos técnicos, convicções pastorais ou preocupações éticas.

–        Recuperar as duas conquistas litúrgicas do concílio – participação e sacramentalidade de toda a liturgia – e zelar por elas. Ambas são essenciais para as celebrações e para a vida da Igreja.

–        Reler, aprofundar e aproveitar tudo o que a nota da CNBB oferece à pastoral litúrgica nas paróquias e comunidades.

BIBLIOGRAFIA

BARAÚNA, G. A participação ativa, princípio inspirador e diretivo da constituição litúrgica. In: ______ (Org.). A sagrada liturgia renovada pelo concílio: estudos e comentários em torno da constituição litúrgica do Concílio Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1964.

BUYST, I. Alguém me tocou! Sacramentalidade da liturgia na Sacrosanctum Concilium (SC), constituição conciliar sobre a sagrada liturgia. Revista de Liturgia, São Paulo, n. 176, 2003.

ESTEVES, J. F. C.; CORDEIRO, J. M. G. Liturgia da Igreja. Lisboa: Universidade Católica, 2008. (Estudos Teológicos, 19.)

GALIMBERTI, U. I miti del nostro tempo. Milano: Giangiacomo Feltrinelli, 2009.

LEÃO MAGNO. Segundo sermão para a Ascensão. In: CORDEIRO, José de Leão (Org.). Antologia litúrgica: textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003.

ORIGÈNE. Homélies sur les nombres 3, 23,6. Paris: Éditions du Cerf, 2001.

RICOEUR, Paul. La logica di Gesù. Magnano: Qiqajon, 2009.

TABORDA, F. Sacramentos, práxis e festa: para uma teologia latino-americana dos sacramentos. Petrópolis: Vozes, 1987.

VAGAGGINI, C. Vista panorâmica sobre a constituição litúrgica. In: BARAÚNA, G. A sagrada liturgia renovada pelo concílio: estudos e comentários em torno da constituição litúrgica do Concílio Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1964.


[2] A nota fala explicitamente do “projetor multimídia”, mas extensivamente a expressão se refere também a outros “aparatos” técnicos no interior da celebração (n. 3.14.16.17).

[3] A nota não pretende esgotar o assunto, tampouco está fechada em um posicionamento rígido, como quem pronuncia uma palavra final. O convite à reflexão se dirige a todos, “sobretudo, àqueles que utilizam o projetor multimídia como recurso para a liturgia”. Isso confere ao texto um tom respeitoso e aberto ao diálogo.

[4] A mesma ideia se encontra na afirmação de Cipriano Vagaggini: “O conceito de Liturgia vem abertamente derivado da noção de sacramentum, que se verifica em Cristo, na Igreja em geral e na sua aplicação à Liturgia. Sacramentum na acepção acima explanada: algo sensível que de uma forma ou outra contém, manifesta, comunica aos bem-dispostos uma realidade divina, invisível” (grifo meu) (VAGAGGINI, 1964, p. 137).

[5] Evidentemente o autor tem em mente um modelo de exegese já superado, mas que decerto influenciou a cosmovisão cristã, sobretudo ocidental.

[6] Não tratarei da questão “folhetos de missa”. Esta é já bastante discutida por outras competências, embora sejam também um aparato técnico. Por isso, faço aqui a distinção “folhetos de canto”.

[7] Cf. “O mercado de papel e celulose”, na revista FAE Business, v. 1, p. 44-45, 2001. Trata-se de breve síntese, que apresenta em grandes linhas a questão da produção de celulose. <www.fae.edu/publicações/pdf/revista_fae_business/n1_dezembro_2001/analisesetorial_o_mercado_de_papel_e_celulose.pdf> . Acesso em: 4 fev. 2011.

[8] No caso dos doentes, as missas na TV têm a função de consolar e educar na fé, mas não substituem a visita do ministro que leva a comunhão, celebra com o enfermo e torna a comunidade presente na vida da família e da pessoa visitada.

[9] O ministério da acolhida é, por certo, bem mais que entregar folheto na entrada da igreja. Mas é também isso. E, enquanto for isso – esse é um campo em que não se conseguiu avançar muito –, que seja uma oportunidade.

[10] A nota da CNBB a chama de “acontecimento em si mesmo”, cf. n. 11.

[11] Paul Ricoeur acrescenta que os símbolos têm caráter memorial: “a nossa cultura, na medida em que se conforma a um modelo tecnológico, produz esquecimento. O usuário da ferramenta, da máquina não tem memória: o instrumento se esgota na sua função atual, abole o próprio passado no uso que se faz dele no presente. O símbolo, ao contrário, possui memória, é memória” (RICOEUR, 2009, p. 85).

Pe. Danilo César dos Santos Lima

* Doutorando em Sagrada Liturgia; membro da Rede Celebra de Animação Litúrgica.

E-mail: danidevictor@gmail.com