Publicado Originalmente em Vida Pastoral da Paulus

Por Pe. Danilo César dos Santos Lima

A Comissão Episcopal de Pastoral Litúrgica da CNBB (CEPL) emitiu recentemente uma nota intitulada: “O uso do projetor multimídia na liturgia – elementos para a reflexão”,[1] cujo escopo é “oferecer elementos para uma reflexão e futuros aprofundamentos da parte do episcopado nacional, dos liturgistas, dos párocos e todos os agentes de pastoral litúrgica” (n. 1). Este artigo pretende comentar esse oportuno subsídio, refletindo sobre dois aspectos relativos à liturgia – a sacramentalidade e a participação –, além de analisar e ponderar a questão dos aparatos técnicos introduzidos nas celebrações.

I. A NOTA EMITIDA PELA PASTORAL LITÚRGICA DA CNBB

O texto oferece 18 artigos muito lúcidos a respeito da questão que considera uma “realidade frequente em nossas comunidades”. Trata-se de prática litúrgica relativamente nova e pouco discutida, cuja eficácia e resultados parecem insuficientemente avaliados: o uso do projetor multimídia nas celebrações.[2] Após o estabelecimento da questão nascida de um olhar sobre a realidade (n. 1-5), o texto apresenta consistente exposição do tema “participação na liturgia” e suas consequências lógicas, que perpassa a maior parte do texto (n. 6-16). Ao final, fornece algumas pistas e questionamentos, em vista da orientação que lhe cabe oferecer (n. 17-18).[3]

1. Participação, conceito-chave

Grande parte do texto se detém no conceito “participação na liturgia” (cf. n. 5-8.10.12.14.16.17), fundamental para compreender a reforma conciliar. O tema foi preocupação da Igreja desde o pontificado de Pio X, com o moto-próprio Tra le sollecitudini (22 de novembro de 1903). O documento foi um grande impulso e incentivo ao Movimento Litúrgico (ML), que levou adiante a tarefa de “refontalizar” a liturgia da Igreja com estudos, pesquisas, debates e iniciativas reconhecidamente ousadas no campo da ação litúrgica.

O esforço do ML desembocou no Concílio Vaticano II, como coroamento de longo percurso e de grande desejo de ver renovada a liturgia da Igreja. O concílio, acolhendo as contribuições desse histórico movimento, promulgou a constituição conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia em 4 de dezembro de 1964. Nessa constituição, a participação dos fiéis na liturgia é expressão tão usada, que a comparam a uma ladainha ou estribilho, dada a sua insistência e recorrência (BARAÚNA, 1964, p. 281-353). Decorridos quase 50 anos desde o concílio, o tema continua atual, exigindo, vez por outra, aprofundamentos e novas abordagens. A participação na liturgia é direito e dever de todos os batizados (cf. SC 14) e a sua promoção é uma exigência ao ministério ordenado (cf. SC 18-19) e à pastoral litúrgica. Não obstante sua importância, o risco de esquecimento do significado dessa conquista está sempre presente. As novas gerações, distantes do evento conciliar e vulneráveis ao esquecimento histórico causado por motivos ideológicos ou por uma visão alheia aos avanços conciliares, correm o risco de se entusiasmar com práticas litúrgicas que desconsideram o concílio e sua insistência sobre a participação dos fiéis, ignorando sua profundidade e implicações para a vida eclesial.

1.1. Sacramentalidade da liturgia

A nota da CNBB relaciona a participação com a noção de sacramentalidade da liturgia quando associa a presença de Cristo nas ações, nos símbolos e ministros (n. 11-12), na celebração e seu caráter simbólico, à manifestação do mistério de Cristo nos momentos rituais da eucaristia (n. 8) e da Palavra (n. 9).

Sacramentalidade é conceito aplicado a toda a liturgia, para expressar que ela goza da mesma natureza dos sacramentos (BUYST, 2003, p. 4-9; ESTEVES e CORDEIRO, 2008, p. 92-99), e deriva da própria “economia da salvação”. Significa falar do modo pelo qual Deus nos salva. Esse modo é sacramental, isto é, mediado por uma linguagem simbólica. Em sentido profundo, não existe outra forma de comunicação com o ser humano.

Deus se fez humano, tornando-se acessível aos sentidos, fazendo-se ouvir, tocar e ver de perto. Na pessoa de Jesus de Nazaré, a humanidade encontrou Deus. O invisível no visível, ao alcance da natureza humana. Jesus é o sacramento do Pai, e da mesma forma se entende a Igreja: é sacramento de Cristo, na condição de seu Corpo e continuadora da sua missão. A sacramentalidade da economia da salvação é muito bem expressa pela LG 1 e pela SC 5-6. Dessa mesma economia deriva a sacramentalidade da liturgia, enquanto celebra a salvação e prolonga a ação salvífica de Cristo, o Sacramento primeiro.

1.1.1. Uma chave: a encarnação do Verbo

Por trás dessas afirmações reside um pressuposto que faz compreender a (teo)lógica da sacramentalidade: a encarnação do Verbo. São Leão Magno afirma: “aquilo que era visível em nosso Redentor passou para os sacramentos” (LEÃO MAGNO, 2003, p. 1031). Prevalece aqui o mesmo princípio: aquele que subiu ao céu continua presente em nosso meio “na carne dos sinais” (ritos e símbolos). Orígenes considera a oração pronunciada pela Igreja como a carne do Verbo de Deus (ORIGÈNE, 2001, p. 130). Nesse sentido, o relato de Emaús (Lc 24,13-35) é paradigmático: o andarilho que caminha com os discípulos sem ser notado se manifesta no gesto sacramental da fração do pão. Os olhos da fé se abrem, reconhecendo-o, mas aquele que trilhou o caminho desaparece diante deles, restando o sinal do pão partilhado e a pergunta que carrega a certeza da fé: “Não era ele?”

Essa (teo)lógica sacramental sustenta as afirmações da SC 7, em que o olhar menos atento pode se prender ao aspecto “fisicista” da presença de Cristo. Sim, ele está realmente presente, mas de modo sacramental, agindo e prolongando sua obra redentora por meio dos ministros, dos sacramentos, da Igreja que ora e salmodia, das espécies sagradas, conforme bem salienta a nota da CNBB.

1.1.2. Três dimensões da sacramentalidade

Três aspectos delineiam a sacramentalidade da liturgia: a expressão significativa, o fato valorizado e a intercomunhão solidária (cf. TABORDA, 1987, p. 46-48).[4] Fica claro que a expressão significativa são os ritos e símbolos da celebração cristã; o fato valorizado é o próprio mistério de Cristo; a intercomunhão solidária, a Igreja como Corpo do Senhor, do qual ele mesmo é a cabeça. Esses elementos constitutivos da celebração não podem ser negligenciados, com o risco de comprometer a dinâmica sacramental e a participação. A expressãosignificativa comporta duas dimensões: uma sensível e outra não sensível. A parte sensível é o que vemos, tocamos, cheiramos, degustamos e ouvimos. A parte não sensível é o próprio mistério que lhe confere sentido e densidade. Uma se orienta para a outra: a água que se vê e se toca conduz à purificação dos pecados, à comunhão com a morte e a ressurreição do Senhor, ao Cristo “água viva” que sacia nossa sede. O fato valorizadoé a própria salvação realizada na pessoa de Jesus Cristo. É o “mistério da fé” que perpassa toda a liturgia e fecunda os sinais. Esse mistério, testemunhado pela Escritura e pela Tradição, não está encerrado no passado. Dois movimentos lhe dão acesso: ele vem ao encontro da comunidade que celebra, tocando-a por meio da celebração. Ela, por sua vez, vai ao seu encontro por meio da ação memorial que realiza por meio dos ritos e preces (cf. SC 48).

A comunidade de fé é o sujeito da ação litúrgica. Mas essa ação só tem sentido em estreita comunhão com Cristo. É ele quem age nas celebrações por meio das pessoas dos ministros e da assembleia. A ação da Igreja se entende na perspectiva da íntima comunhão com o Senhor, como seu Corpo místico. Ao movimento ascendente da súplica e do louvor e adoração corresponde sempre o movimento descendente da salvação, da bênção, da vida plena que Deus oferece.

Os três aspectos essenciais para a dinâmica celebrativa se interpenetram de tal forma, que, referindo-se a um, os outros aspectos são automaticamente contemplados e vice-versa. Exemplo: o pão partido (expressão significativa) durante o canto “Cordeiro de Deus” remete à comunidade (intercomunhão solidária), convidada a acolher tal dom. Partindo o pão, ela se reconhece, em Cristo, dom e entrega pela salvação do mundo.

1.2. Participação e sacramentalidade

Que significa então participar plenamente da liturgia, levando em conta a sua sacramentalidade? Significa mergulhar na celebração, ação eminentemente simbólica, jogo de sinais. Tudo começa pelos sentidos, que são a porta de entrada para uma participação efetiva. Não se trata de informação teórica, conteúdo sistematicamente ordenado e inacessível que necessita, a priori, ser revelado por meio de recursos midiáticos de última geração. Na comunhão dos irmãos, nos serviços ministeriais, nos sinais deixados por Jesus e transmitidos pela Igreja, a presença atuante do Senhor vai se manifestando. Os que celebram são progressivamente a ele associados pela ação do Espírito Santo nas espécies consagradas, na Palavra celebrada, no caráter memorial dos cantos, na vela que ilumina, no perfume que sobe e se espalha, nas flores que embelezam…

Aquele mesmo que outrora curou os doentes, consolou os aflitos, acolheu os pecadores, evangelizou os pobres e anunciou o reino continua hoje, por meio da Igreja e da liturgia, sua obra redentora. Sentado à direita do Pai, ele continua a agir sacramentalmente: na Igreja, nos sacramentos, nas demais celebrações da liturgia, na missão de evangelizar e anunciar o reino de Deus. Num processo que dura uma existência, os cristãos vão sendo a ele incorporados e guiados pelo seu Espírito para continuar no mundo o que ele começou. Quando oram, é a voz dele que chega ao Pai. Quando socorrem, é o seu toque curativo que alcança o “ferido”. Quando consolam, vem dele a consolação. Quando se fazem próximos, é a sua presença que se efetiva junto aos necessitados. Participar da liturgia é tornar-se processualmente sacramentos de Cristo no mundo, vivendo como pessoas transformadas pela páscoa de Jesus que se celebra (cf. Cl 3,1-4).

À falta de sacramentalidade corresponde a falta de participação. Somente se participa do mistério mediante uma dinâmica sacramental. Não se participa do mistério de Cristo por uma imagem projetada ou por um simulacro dos símbolos e ritos da Igreja. Os sinais precisam ser verdadeiros. Uma imitação de vela ou de flor não remete a nada. Além disso, é necessário permitir, favorecer a sua verdade. Um canto mal entoado por preguiça de frequentar os ensaios, uma fração do pão que não se vê, uma leitura mal proclamada ou uma aspersão que não se sente não comunicarão o mistério. O mesmo se aplica às demais celebrações: perde-se a sacramentalidade da Liturgia das Horas quando se fazem todas as horas de uma só vez, para cumprir o preceito. Que dizer de uma bênção “corridinha” a caminho da sacristia?

Antes de recorrer a qualquer artifício extralitúrgico, cabe perguntar se foi feito todo o possível e necessário a partir da própria celebração, da própria liturgia. Como ensina a nota da CNBB, citando a IELM (Introdução ao Elenco de Leituras da Missa) n. 37, nenhum subsídio de ordem pastoral pode substituir o símbolo litúrgico (n. 10).

Foto: Jornal do Interior Penapolis