A individualidade é algo digno de reconhecimento. Porém, o individualismo é maléfico (Kyle Glenn/ Unsplash)

Robert Henrique Sousa Dantas* 

No contexto social, com as precariedades políticas que estamos inseridos, tem aumentado a quantidade de pessoas que estão se aglomerando debaixo das pontes. As enchentes nesses últimos dias são exemplos da falta de políticas públicas e da responsabilidade de bilhões de brasileiros. E o que se tem feito para reverter essa situação? Aonde estão indo as verbas destinadas para tais problemas? Com uma produção que daria para alimentar toda população brasileira e ainda sobraria para exportar, por que existem várias pessoas famintas nas ruas? A avareza dessas pessoas não permite que elas coloquem o capital em função dos mais pobres, para a construção de um mundo melhor, sendo assim eles acumulam para si e só pensam em si. Que passos tomar diante de uma sociedade individualista e avarenta?

O individualismo teve seu início na modernidade em meados do século 16 com a Reforma Protestante, na qual os indivíduos passaram a ter as próprias convicções, ideias, estilos, independente das outras pessoas e instituições. Stuart Mill afirma que a função da sociedade é gerar o maior grau de bem-estar para o maior número de pessoas possível. Porém, posteriormente, o indivíduo passou a ter direito ao acúmulo e à marca do homem passa a ser o egoísmo e não o bem comum.

Torna-se importante refletir sobre os aspectos negativos e positivos desse individualismo que se apossou dos indivíduos na modernidade, uma vez que por trás deste está um grande interesse político que mantem a sociedade dividida em classes dominantes e classes dominadas. A era moderna representa uma sociedade individualista, interesseira e avarenta, sem se importar com o outro, com seu próximo, pois aqui o ter, o lucro e o interesse pessoal são mais importantes que a pessoa ao lado, pois é nessa era que os indivíduos se lançam em busca do conhecimento e da verdade, porém, quem faz isso, são a minoria, os indivíduos em sua grande maioria continuam “presos” e manipulados pela sociedade capitalista que manipula através dos veículos de informação e de massa sem que os mesmos percebam.

A função da sociedade é ser egoísta, pois o que move a sociedade não é a solidariedade, mas o egoísmo, a disputa, a competição em sempre querer mais. As classes veem as outras como inimigas e não como seres que dependem uns dos outros para exercerem a sua função, possuindo assim direitos iguais.

Desde a segunda metade do século 20, uma série de movimentos sociais passou a reivindicar os direitos das chamadas “minorias”, ou seja, de grupos que foram marginalizados durante o processo de implantação dos direitos humanos universais ou que simplesmente não tiveram suas questões devidamente incorporadas pelo avanço do capitalismo: negros, homossexuais, mulheres, índios, o meio ambiente, entre outros. Porém, com a intensificação do individualismo, tendo como consequência a avareza, os indivíduos não conseguem mais se organizarem para lutar contra a perda de direitos, eles não pensam no coletivo, mas somente em si mesmas, nos seus direitos, nos seus objetivos, não mais no outro.

Falta aí a consciência de que o outro é uma pessoa humana e que deve ser respeitada na sua individualidade, mas para isso é preciso romper com esse individualismo que desperta a avareza e impede a igualdade entre os homens. Já dizia Bob Marley: “Se todos dermos as mãos, quem sacará as armas?”. Mas é muito difícil pensar desta forma diante de uma sociedade individualista que cada um só quer defender e preservar o que acredita e além do mais nem se quer respeita a opinião do outro. Cada indivíduo tem a sua “verdade” como absoluta e a verdade alheia não passa de mentira, engano, mito.

Esse fator reflete de forma negativa na sociedade, pois ignora a diferença que pertence ao outro. Neste processo são intensificados outros elementos negativos como o egoísmo ou o narcisismo e, consequentemente, a avareza, que é a falta de generosidade, a mesquinhez, a insignificância e miserabilidade de querer tudo para si e não pensar no outro.

Portanto, só há espaço para o individualismo por causa do empobrecimento dos aspectos coletivos, ou seja, pela desvalorização da vida compartilhada com o semelhante, da avareza de muitos que só pensam em acumular para si e deixar muitos sem nada, seja no ambiente familiar ou na comunidade como um todo. É assim que se planta violência e transtornos sociais dos quais se questiona acerca da sua origem. Com isso, a individualidade é algo digno de reconhecimento. Porém, o individualismo e a avareza são extremamente maléficos e excludentes, impeditivos para a luta em prol da garantia do bem comum e da vida em comunidade.

*Robert Henrique Sousa Dantas é discente do curso de bacharelado em Filosofia, no Instituto Santo Tomás de Aquino. E-mail: robertprados777@gmail.com

Publicado originalmente na revista eletrônica Dom Total