Restauração de igreja destruída por irmandade muçulmana acontece no Natal ortodoxo

Esta terça-feira, 7 de janeiro, é o dia de Natal para as Igrejas Orientais Católicas e as Igrejas Ortodoxas que seguem o calendário juliano. Portanto, para as Igrejas do Oriente Médio é Natal, mas também para a Igreja Católica greco-ucraniana e para os cristãos ortodoxos que vivem na Rússia, Belarus, Sérvia, Croácia, Macedônia e outras. No Egito, os católicos do Cairo e de Alexandria já celebraram em 25 de dezembro, enquanto que os do Alto Egito festejam neste dia 7 de janeiro junto com os ortodoxos.

Resistência

Para os coptas ortodoxos este ano é especial pois será reaberta na cidade de Minya a igreja de Anba Moussa al-Asswad, recém restaurada. Trata-se de uma das 84 igrejas que foram destruídas pela Irmandade Muçulmana em 2013, depois do golpe de Estado de 3 de julho. A sua restituição ao culto constitui para todos os cristãos um belo sinal de esperança.

Diferença de calendário

Enquanto a Igreja Católica segue o calendário gregoriano, proposto pelo papa Gregório em 1582 com a bula Inter gravissimas, a maior parte das Igrejas Ortodoxas do mundo segue o calendário juliano, criado em 45 a.C., durante o Império de Júlio César.

Assim, o 25 de dezembro no calendário gregoriano corresponde ao 7 de janeiro no calendário juliano. E o 6 de janeiro, vigília de Natal para as Igrejas ortodoxas, marca a Epifania, festa cristã que comemora a manifestação de Jesus Cristo como Deus encarnado, que é celebrada por sua vez em 19 de janeiro pelas Igrejas ortodoxas.

A adoção do calendário gregoriano pelas Igrejas Ortodoxas varia entre as diferentes jurisdições de cada denominação. Assim, por exemplo, muitos ortodoxos nos Estados Unidos seguem o calendário gregoriano enquanto as Igrejas Ortodoxas no leste europeu e no Oriente Médio seguem o calendário juliano.

Paz para o Egito

Padre Boules Garas, secretário-geral do Conselho das Igrejas do Egito, sacerdote católico que mora no Cairo fala sobre o clima de Natal e as esperanças para este dia 7 de janeiro e a atual situação do país.

Pe. Boules : Na noite de Natal perguntei-me porque tinha tanta segurança ao redor da nossa igreja, da nossa paróquia. Saindo lá fora a polícia pediu para que mandasse ajudantes para controlar as bolsas das mulheres. Perguntava-me; “Mas por que todo este medo? Vivemos em um país tranquilo”. Disseram-se que havia muita tensão nos arredores e precisávamos ficar em alerta. Mas graças a Deus tudo correu tranquilo, celebramos a Missa até tarde e a igreja estava lotada de fiéis. Esperamos que continue assim para a celebração do Natal no Alto Egito.

O senhor é o secretário-geral do Conselho das Igrejas do Egito. Como são atualmente as relações entre católicos e ortodoxos no seu país?

Pe. Boules: Estamos fazendo grandes passos para um recíproco respeito. Recebi o Patriarca ortodoxo, Papa Tawadros II, dia 25 de dezembro, veio nos visitar para felicitações natalinas e junto com sua Eminência o Patriarca católico Isaac Sidrak e os bispos, irei à Catedral ortodoxa neste dia 7 de janeiro para os votos de Feliz Natal à Sua Santidade. Portanto as relações entre os cristãos estão melhorando, fazendo grandes passos.

Por que os coptas católicos celebram o Natal em duas datas diferentes segundo a região em que moram?

Pe. Boules: Simplesmente porque no Alto Egito os cristãos são uma minoria. Dentro desta minoria há uma minoria ainda menor que é a católica, em uma só família pode-se encontrar membros católicos e ortodoxos. Então festejamos juntos, porque se os católicos festejassem sozinhos no Alto Egito, o clima de Natal não seria o mesmo entre as crianças e as pessoas. Ao invés, estes cristãos unidos – católicos, ortodoxos, protestantes – festejam o Natal dia 7 e a festa é de todos.

Na Bíblia, o Egito é citado muitas vezes como lugar de acolhida, mesmo no Novo Testamento a terra egípcia é o lugar onde se refugiaram Maria e José com o Menino Jesus para fugir das perseguições de Herodes. Quanto isso é presente na consciência da Igreja copta?

Pe. Boules: Na celebração da festa da Sagrada Família, uma semana atrás, escrevi e disse que a acolhida é uma parte importante da nossa cultura oriental. Nós acolhemos mais de 3 milhões de sudaneses que ainda estão no Egito. Acolhemos sírios, palestinos e nunca fizemos um campo de refugiados, mas para nós são irmãos, trabalham conosco, vendem nas ruas e jamais se sentem estrangeiros ou refugiados no Egito. Temos bairros em várias cidades que são inteiramente sírios ou iraquianos. Sempre recebemos todos. Portanto, o que diz a Bíblia é um sinal para nós continuarmos nesta linha, porque primeiro recebemos José, Jacó e as 12 tribos de Israel, para nós acolher é um sinal cristão e profundamente evangélico.

Pe. Boules qual é o seu voto para o Ano Novo ao Egito e aos cristãos do seu país?

A paz! A paz e a prosperidade. Aqui no Oriente Médio o clima está muito tumultuado; na Líbia ao nosso noroeste, em Gaza no leste e no Sudão no sul, e agora as atitudes da Turquia. O clima ao nosso redor é verdadeiramente perigoso e ameaçador. Portanto o maior desejo é manter a paz e a serenidade.