Felipe Magalhães Francisco*

Estou mexendo em vespeiro, bem o sei. Mas este tem sido um tema urgente e que não deve ser menosprezado e ignorado. Se, no cotidiano religioso católico, já há muito tempo se tem transformado a relação com a espécie eucarística de um modo que em nada revela a riqueza da comunhão no Corpo e Sangue do Senhor, agora, com esta pandemia que nos obriga ao isolamento social, o caráter idolátrico e fetichista para com a hóstia consagrada tem sido absurdamente explícito. A hóstia, para muitos e muitas, tem sido um amuleto que se pode comer.

A começar, temos uma dificuldade de linguagem. Convencionou-se a chamar “eucaristia” as espécies consagradas, enquanto que este é o nome dado à celebração como um todo. A Celebração Eucarística, ou Eucaristia, por sua vez, tem sido chamada, em geral, de “missa”. Chamar as espécies eucarísticas de eucaristia não é, em si, um problema, desde que não reduza o seu significado apenas a isso. Valor sacramental tem, pois, a celebração como um todo, na unidade entre as duas mesas: do Pão Palavra e do Pão Carne e Sangue de Cristo.

A segunda questão inadiável, aqui, é a respeito do aspecto de alimento espiritual que tem o pão e o vinho eucaristizados. A participação na Eucaristia – a Celebração, como um todo, cujo ponto alto é comunhão no Corpo e Sangue do Senhor! – é a máxima expressão de fé de cristãos e cristãs católicos. Comer e beber do pão e do vinho eucaristizados é, pois, um símbolo ritual do nutrir da fé. Mas é preciso não confundir as coisas: esse alimento não é, absolutamente, de caráter subjetivista; ele é, essencial e necessariamente, comunitário. Na Oração Eucarística há dois pedidos de envio do Espírito Santo que são indissociáveis: para que o Espírito transforme pão e vinho em Corpo e Sangue de Cristo; e que esse mesmo Espírito faça dos que comungam um só corpo e um só espírito. A piedade pessoal, nesse sentido, é secundária: em primeiro lugar, o fato de que, comendo do mesmo pão eucaristizado e bebendo do mesmo cálice, sejamos associados em verdadeira comunhão, à vida de Jesus Cristo, morto-ressuscitado.

É bastante compreensível que fiéis estejam sofrendo em não poder comungar do Corpo do Senhor. A Eucaristia é a vida da Igreja! Mas, a pergunta que não deve deixar de ser feita é se esse sofrimento é pela não participação comunitária na celebração da fé, ou num aspecto subjetivista de que comungar da hóstia, apenas, é suficiente para que a fé esteja fortalecida. Se pararmos para pensar no processo de individualismo que chegou também nas fileiras das igrejas, e na já antiga compreensão de que a participação seja por preceito, é mais certo que consideremos que, em muito, o sofrimento se dá por uma questão subjetivista, infelizmente.

Enquanto há dioceses e paróquias trabalhando incansavelmente para proporcionar o cultivo da religiosidade e da espiritualidade de fiéis, de maneiras legítimas, mistagógicas e pedagógicas, há também um sem número de clérigos irresponsáveis que contribuem para a má compreensão do verdadeiro valor da eucaristia na vida da Igreja. Passeios com o ostensório por helicóptero; e em carreata: tudo isso só revela uma coisa: o pão eucarístico é visto como um fetiche. Fetichizar o pão eucarístico é idolátrico! Jesus Cristo se dá no Pão e no Vinho para que seja comido e bebido e, assim, os discípulos e discípulas formem um único corpo: é celebrativo e não imagético, mágico. Igualmente irresponsável e que reduz o valor da Eucaristia, é a trágica experiência do drive-thru, tal como num Mc Donald’s.

Entre leigos e leigas também há um processo cômodo de fetichização da Eucaristia, quando percebemos que o aspecto religioso e de preceito ocupa, absolutamente, o valor genuinamente cristão do comer e beber o Corpo e Sangue de Cristo eucaristizados. Roda, por aí, um movimento nomeado de Devolvam-nos a missa. É irresponsável, porque ignora as recomendações de isolamento, tão fundamentais para que superemos essa crise; é idolátrico, porque absolutiza a comunhão na espécie eucarística; é fetichista, porque reduz a comunhão eucarística a um prazer subjetivista, de apaziguamento de carências puramente psíquicas; e é anti-cristão, porque se trata de um movimento sectário, no qual se excluiriam, segundo os arautos desse absurdo, aquelas pessoas dos grupos de risco, e só os sãos seriam liberados pela alfândega religiosa: seria verdadeira comunhão da própria condenação, tal qual nos alerta Paulo (cf. 1Cor 11,29).

O grito legítimo, pois, seria: Devolvam-nos a Eucaristia, no real lugar que ela ocupa na fé cristã, para além de fetichismos, idolatrias e magias. Que estes tempos sejam propícios para aprender alguma coisa, que de fato nos eduque para a fé!

Publicado originalmente no site dom total

*Felipe Magalhães Francisco é é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.co