Por Pe. Johan Konings, sj

1. O que a Igreja percebeu

Há aproximadamente 60 anos o Papa Pio XII oficializou, na Encíclica Divino Afflante Spiritu, o que muitos pastores e estudiosos andaram percebendo: “Qual o sentido literal de um escrito, muitas vezes não é tão claro nas palavras dos antigos orientais como nos escritos de nosso tempo. […] O intérprete deve transportar-se com o pensamento àqueles antigos tempos do Oriente e examinar e distinguir claramente que gêneros literários quiseram empregar e empregaram de fato os escritores daquelas épocas remotas. De fato, os antigos orientais, para exprimir os seus conceitos, nem sempre usaram as mesmas formas e gêneros de expressão que nós hoje usamos; mas sim aqueles que estavam em uso entre os seus contemporâneos e conterrâneos. […] Ninguém […] poderá estranhar que também nos autores sagrados, como nos outros antigos, se encontrem certos modos de expor e contar, certos particularismos próprios especialmente das línguas semíticas, certas expressões aproximativas ou hiperbólicas e talvez paradoxais, que servem para gravar as coisas mais firmemente na memória […]. Advertiu já o Doutor Angélico [Sto. Tomás de Aquino] […]: ‘Na Escritura as coisas divinas nos são apresentadas ao modo usual, humano’. Como o Verbo substan­cial de Deus se fez semelhante aos homens em tudo ‘exceto o pecado’ (Hb 4,15), assim também a palavra de Deus expressa em línguas humanas assemelhou-se em tudo àquela providencial condescendência (synkatábasis) de Deus […]” (Acta Apostolicae Sedis 35 [1943]314-316).

No mesmo sentido, repete o Concílio Vaticano II: “Para descobrir a intenção dos hagiógrafos devem-se levar em conta, entre outras coisas, também os ‘gêneros literários’” (Dei Verbum, nº 12). E o documento da Pontifícia Comissão Bíblica, de 1994, insiste: “Segundo a Divino Afflante Spiritu a procura do sentido literal da Escritura é uma tarefa essencial da exegese e, para cumprir esta tarefa, é necessário deter­minar o gênero literário dos textos […], o que se realiza com a ajuda do método histórico-crítico” (A Interpretação da Bíblia na Igreja, I, A, 4). Portanto, considerar os gêneros literários na explicação da Bíblia não é nenhuma impiedade ou falta de fé.

Mas o que é “gênero literário” (“tipo de texto”, como hoje se diz)?

Todo o mundo sabe que o mesmo fato é descrito de modo diferente no relato do jornalista, na folha de ocorrência policial e na fofoca das comadres da rua. São três “gêneros literários” diferentes, e quem entende das coisas percebe imediatamente qual a versão do jornalista, do guarda de trânsito ou das comadres. Assim também na Bíblia. Um texto pode ser concebido conforme padrões diversos, em função de seu ambiente de origem e do uso que dele será feito: liturgia, ensino, crônica oficial etc. Os gêneros mais “genéricos” são a prosa, a poesia, o drama ou teatro; ou, sob outro ângulo, a narrativa e o discurso. E daí em diante podem-se subdistinguir centenas de variedades subalternas. Deve-se associar à questão do gênero literário também a da “forma” literária, que se refere às formulações específicas presentes nos textos bíblicos em função de determinadas finalidades, especialmente às das comunidades cristãs que se exprimem no Novo Testamento (por exemplo, as fórmulas do querigma, as fórmulas de profissão da fé, os apotegmas, as parábolas).

O exame dos gêneros literários permite, entre outras coisas:

1. compreender melhor a intenção do autor e, consequentemente, a mensagem do texto;

2. individuar o contexto vital no qual o texto se origina;

3. situar melhor “a verdade” da Bíblia. Essas três finalidades, como veremos, estão intimamente ligadas entre si.

 

2. Conhecer a intenção do autor e compreender a mensagem do texto

O desconhecimento do gênero literário pode levar a uma interpretação errônea do texto. Um gênero didático muito usado pelos antigos, tanto por Sócrates como pelo livro dos Provérbios, é a ironia — que significa: questionamento. Diz-se uma coisa jocosa, paradoxal ou fictícia para pôr em xeque uma opinião ingênua, para provocar a reflexão. Ora, não poucas vezes, nos testes de verificação, os alunos reproduzem observações irônicas do professor como se fossem a mais segura verdade, sem desconfiar da intenção questionadora do mestre. Isso porque não perceberam o gênero literário usado por ele: a ironia. Gênero que a Bíblia usa em profusão; veja, por exemplo, a acolhida de Nabucodonosor no inferno, em Is 14,3-23, ou a palavra de Jesus em Mc 7,18-19.

Outro exemplo: a narrativa didática. Gn 2-3, a história de Adão e Eva, que nos ensina qual é a situação e a vocação do ser humano. Para expressar a universalidade, recorre-se ao gênero literário da “narrativa das origens” (próximo do “mito”, no sentido científico desse termo). Pois quando se fala das origens, ninguém escapa! Os nomes são simbólicos: Adão faz pensar em adamá, “terra”, e Eva em hawah, “viver”. Eles vivem como príncipes num “paraíso” (= jardim palacial). Mas está aí também a possibilidade do pecado, apresentando-se na forma da serpente, e os dois se comprometem com ele por quererem ser como deuses… Assim é todo ser humano. Só quem não percebe, pelo menos intuitivamente, o gênero literário dessa história pode pensar que ela faz parte da História Natural!

O livro de Jó escandaliza certas pessoas, porque Jó protesta contra Deus (Dt 8,16 diz: “Não porás o Senhor, teu Deus, à prova”). Mas sabendo que se trata de um quase teatro, que recorre ao gênero literário do processo, compreende-se melhor o teor: é uma maneira de pôr em diálogo a justiça de Jó, os preconceitos teológicos de seus “amigos” e o mistério insondável de Deus, que não abandona Jó, apesar do sofrimento inexplicável deste.

É preciso saber com que tipo de literatura se está lidando. E lembremos que a Divino Afflante Spiritu diz que a consideração do gênero literário é necessária para conhecer o sentido literal do texto, ou seja, o sentido que o autor literalmente quis expressar. O autor de Gn 2-3 quis literalmente expressar um sentido didático. O de Jó quis literalmente encenar, como num teatro, um diálogo entre três pontos de vista em conflito. Individuar o gênero literário — por exemplo, o gênero simbólico — não significa inventar um sentido simbólico ao gosto do leitor ou do exegeta (que interpreta a bíblia), mas apontar o modo como o autor quis ser entendido. Assim, conforme o caso, determinado sentido simbólico pode ser o sentido literal — literalmente o que o autor quis dizer. Ao contrário, ler a história de Adão e Eva como um fato da História Natural, sem levar em conta o simbolismo usado pelo autor, é uma traição da verdade bíblica!

 3. Conhecer o contexto vital do texto

O gênero literário pode nos ensinar algo sobre a situação ou o contexto da vida que deu origem a esse modo de falar. É pouco provável, por exemplo, que um texto irônico tenha surgido numa liturgia de louvor a Deus! É típico de alguém que quer levar seu público a refletir: por exemplo, os profetas que acusam a falsa segurança do povo, ou os professores — sábios, como diz a Bíblia — que querem ensinar seus ouvintes a pensar um pouquinho mais. O próprio gênero literário fornece um indício, ainda que impreciso, sobre a situação em que o texto foi formulado.

A ligação entre o gênero literário e o contexto da vida da comunidade e do autor aparece claramente, por exemplo, em certos salmos: salmos de romaria a Jerusalém, salmos de permanência dos levitas no Templo etc. Escritos como Provérbios e Eclesiástico mostram ligação com o ambiente da educação. Gn 1, abertura da Torá, é um hino litúrgico, culminando no tema do sábado: está ligado à celebração do sábado (que comportava a proclamação da Torá) nas sinagogas, depois do exílio babilônico.

A relação com o contexto vital da elaboração dos textos foi estudada sobretudo no que diz respeito ao Novo Testamento, no método conhecido pelo vocábulo alemão Formgeschichte — mal traduzido como “crítica das formas”; o certo seria: “estudo crítico das formas/fórmulas literárias”. Nesse campo, o método consegue recuar até a tradição oral que precedeu o texto escrito dos Evangelhos. Percebeu-se que certas maneiras de formular a mensagem correspondiam a intenções ou métodos de pregação ou de transmissão das primeiras comunidades cristãs. As necessidades da comunidade forneceram, por assim dizer, o molde em que a tradição foi fundida. Assim, certas palavras em que Jesus é proclamado “o Senhor” provavelmente foram fundidas nesse molde no contexto da prática batismal das primeiras comunidades: o batismo em nome de Jesus, sob proclamação da fé em Jesus como “o Senhor”. As parábolas acompanhadas de explica­ção, em Mc 4 e Mt 13 (o semeador, o joio), parecem refletir a catequese das comunidades cristãs, o que não contradiz que a parábola, na sua original forma simples, seja de Jesus.

 4. Conhecer a “verdade” da Bíblia

Considerando os exemplos citados, aprendemos que a verdade do texto não é aquilo que está aí escrito materialmente, mas aquilo que o autor (solidário com a comunidade que recebeu a revelação de Deus) quis expressar. No caso de um texto irônico, a verdade é o contrário daquilo que está aí escrito de modo irônico e questionador: a ironia é como o negativo de uma fotografia, mostra em preto o que na realidade é branco e vice-versa. Coisa semelhante acontece no exagero (a “hipérbole” bíblica): quando o salmista diz, exagerando, que “não há quem faça o bem, nem um sequer” (Sl 14,1), ele nos faz refletir: será que realmente não há nenhuma pessoa que faça o bem? O mesmo vale para as palavras sobre o camelo passar pelo olho da agulha (Mt 19,24 e par.), a montanha se deslocar (Mt 17,20 e par.) e semelhantes. A verdade não está na letra da frase, mas na conclusão que o autor deseja que o ouvinte tire.

Isso, em certo sentido, vale para toda literatura. As letras são meras referências à realidade que o leitor ou ouvinte deve descobrir por sua própria cabeça. A letra não é verdadeira em si, mas aponta para a verdade fora de si; ou ainda, ela é verdadeira se aponta no sentido certo — ainda que seja ironicamente, fazendo o leitor/ouvinte refletir. Assim, em certos gêneros literários, não importa a exatidão material daquilo que é dito, mas a direção certa para a qual aponta. Exageros, insultos, expressões vingativas, elementos mitológicos… Encontramos de tudo nos diversos gêneros literários, e, se tomássemos tudo isso ao pé da letra, Deus deveria esmagar os filhos dos inimigos contra a mura­lha (Sl 137,9) e deveríamos cortar o pé ou a mão que causasse escândalo (Mt 5,29-30).

 5. Os limites do gênero literário

Não é raro alguém perguntar: então tudo é gênero literário? E a vida de Jesus, e sua ressurreição, como ficam?

Não se pode atribuir tudo ao gênero literário. Este diz respeito à forma na qual o texto foi moldado. Antes dessa “formatação”, porém, existe uma matéria, um fato ou pensamento à procura da forma adequada para ser transmitido. É possível que em função dessa forma sejam acrescentados alguns detalhes, mas a substância é anterior à forma de transmissão. É preciso recuar para lá do texto, procurar atrás do texto. Pode-se dizer que chamar Jesus de “o Senhor” é uma forma das primeiras comunidades. Entretanto, por trás disso se encontra a realidade substancial: algo deu ensejo para que Jesus fosse chamado assim. Onde há fumaça, há fogo. Isso se aplica à questão da ressurreição. A maneira de contá-la — esse ou aquele tipo de aparição, a constatação de um sepulcro vazio — pode refletir o modo de proclamação das primeiras comunidades cristãs. Mas quem pôs na cabeça dos primeiros cristãos que proclamassem coisa tão incrível como é a ressurreição de um crucificado, “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1,23)? Se fosse para ter sucesso na pregação, poderiam ter inventado algo mais acreditável. Olhem só o que aconteceu com Paulo, quando de sua pregação no Areópago em Atenas (At 17,32)!

Toda linguagem assume alguma forma literária, algum modelo de expressão, algum gênero de comunicação: um gênero muito geral (narrativa, discurso…), um gênero mais específico (narrativa didática, discurso de despedida, exortação moral…), uma fórmula específica (apotegma, fórmula querigmática, profissão de fé, doxologia…). Não conhecemos a verdade, a realidade, senão por meio de formas e gêneros literários. Estes não impedem o conhecimento da verdade, antes o possibilitam. Mas é preciso “decodificar” o gênero para discernir a realidade que ele aponta — tarefa de quem a explica: do exegeta e do pregador.

 6. Gêneros literários problemáticos

Não pretendemos aqui abordar todos os gêneros literários, nem sequer os mais importantes, mas apenas os que geralmente provocam dificuldades na pastoral, em nível de catequese, pregação e leitura bíblica.

 6.1. O gênero apocalíptico

Um gênero literário que causa muitos problemas é o gênero apocalíptico, presente nos textos que, com descrições às vezes aterradoras, falam sobre o fim “deste mundo”, em que reinam poderes contrários ao de Deus (DN, Ap, Mc 13 etc.). A interpretação ao pé da letra desses textos até se tornou marca característica de algumas confissões cristãs ou afins (adventistas, Testemunhas de Jeová…). Na realidade, o gênero apocalíptico é uma maneira de expressar a decepção com a presente realidade (daí as imagens ameaçadoras), mas também a esperança de uma realidade melhor, escondida ainda, que o visionário, por ordem de Deus, revela para animar seu povo e fazê-lo resistir aos poderes idolátricos deste mundo que pretendem competir com Deus (apocalipse significa “revelação”). O próprio escritor apocalíptico sabe que suas visões não são objeto de ciência profana: ninguém conhece o dia nem a hora (Mc 13,32). A verdade do gênero apocalíptico não está nas imagens que ele usa, mas na atitude que provoca: firmeza e esperança.

6.2. Histórias de sentido figurativo, parábolas

Existe na sabedoria oriental grande variedade de discursos figurativos, reunidos sob o nome genérico de mashal, linguagem enigmática: fábulas, parábolas, alegorias, enigmas, charadas… Destacamos aqui as parábolas de Jesus, principalmente as parábolas do Reino. Geralmente, mais que descrever, elas querem evocar algum insight (intuição) ou atitude relativa ao Reino de Deus que Jesus anuncia. São histórias para “fazer cair a ficha”, geralmente usando imagens conhecidas da vida cotidiana.

Alguns exemplos. As pessoas querem ver o Reino anunciado. Jesus responde: um agricultor que semeou a semente não fica olhando para vê-la crescer; ele dorme, acorda, cumpre seus afazeres e, de repente, aparecem o caule e a espiga cheia de grãos, não se sabe como (Mc 4,26-29)…

O Reino exige que nos preparemos: é como um administrador que, vendo sua função em perigo, manda os endividados falsificarem a promissória, para que, depois de perder a função, ele tenha amigos (Lc 16,1-8)… Essa parábola, que usa como imagem a duvidosa esperteza comercial dos orientais, faz intuir uma coisa boa: a sabedoria que consiste em preparar-se. Os detalhes descritivos, a desonestidade, não fazem parte do ensinamento; a perspicácia que se revela no comportamento desonesto de um “filho das trevas” pode, de repente, ser uma lição para nós! Na parábola das dez jovens que formam o séquito para o noivo que chega no meio da noite (Mt 25,1-13), a recusa das “sábias” em repartir o óleo com as “tolas” pode parecer egoísmo, mas não é esse o cerne da parábola; o ponto central é que umas estão atentas e preparadas, enquanto outras, negligentes e despreparadas, e aí está sua verdade.

 6.3. Provérbios e aforismos

Os provérbios e aforismos que aparecem com frequência tanto no Antigo como no Novo Testamento são, muitas vezes, “meias verdades”. Por isso, é comum nos livros sapienciais um provérbio ser contrabalançado por outro que diz o contrário (por exemplo, Pr 26,14 versus Pr 26,5; Pr 11,14 versus Eclo 37,8). O leitor tem de refletir sobre quando vale um e quando vale o outro. Caso semelhante acontece no Novo Testamento, quando Jesus diz: “Quem não é contra nós está a nosso favor” (Mc 9,40), mas em outro caso: “Quem não está comigo, é contra mim” (Mt 12,30).

Outros provérbios e aforismos surpreendem por sua crueza. Não são politicamente corretos; nem querem ser, pois procuram assustar: “Deixa os mortos enterrarem seus mortos” (Lc 9,60), “Onde está o cadáver, aí se reúnem os urubus” (Mt 24,28). Essas frases não são objeto de análise palavra por palavra, mas produzem uma impressão de susto salutar: sua verdade não está nos vocábulos, mas no efeito que produzem.

6.4. O cumprimento das Escrituras, a “profecia”

O Novo Testamento, muitas vezes, implícita ou expressamente, vê em determinado acontecimento o cumprimento das Escrituras (do Antigo Testamento, normalmente a Lei e os Profetas, suas partes principais). Aqui se destacam duas dificuldades: 1) o determinismo do cumprimento; 2) a interpretação “acomodada” dos textos antigos.

1) Muitas vezes os textos de cumprimento das Escrituras são introduzidos pela fórmula: “para que se cumprisse…” ou “assim/então se cumpriu…” Isso dá a impressão de que as antigas Escrituras são uma espécie de programa preestabelecido, que se deve cumprir com Jesus de Nazaré. Na realidade, porém, trata-se do reconhecimento posterior de um texto antigo que, de certa maneira, pode significar aquilo que com Jesus veio a acontecer. Dois trechos do Antigo Testamento, ambos do profeta Isaías, são muito caros aos autores do Novo Testamento nesse sentido: o texto do Servo Sofredor (Is 52,13-53,12) e o da incredulidade do povo (Is 6,9-10). Vendo o que aconteceu com Jesus, os autores do Novo Testamento reconheceram que este era o sentido final do fato paradoxal narrado em Is 52-53: um justo massacrado e rebaixado, que carrega sobre si o pecado do povo, mas no fim é exaltado por Deus. A vida, morte e ressurreição de Jesus são vistas como o “sentido pleno” desse acontecimento. Esse “sentido pleno” (= plenificado, ou seja, de significado maior que o originário) é o sentido “espiritual”, reconhecido à luz do Espírito (mas não “espiritualizante”, no sentido de “levantando voo”…).

O mesmo vale para a citação de Is 6,9-10 a respeito da incredulidade do povo diante da palavra de Jesus (Mt 13,14s; Jo 12,39-41) ou dos seus mensageiros (At 28,25-27). O que já aconteceu ao maior profeta do Antigo Testamento tanto mais se realiza em tomo de Jesus: a incredulidade está descontada no projeto de Deus. Não desmancha o projeto, mas já está incluída na conta… Assim, quando essas citações são introduzidas por “para que se cumprisse” ou algo semelhante, não se deve pensar numa predestinação por parte de Deus, mas numa lógica divina que em Jesus se revela em plenitude. Deus não faz sua obra com a finalidade de os destinatários ficarem cegos e endurecidos, mas, quando isso acontece, cumpre-se uma lógica que já apareceu anteriormente. Certas Bíblias traduzem por “de modo que se cumpriu”, pois no pensamento semítico, mesmo quando expresso em grego, a distinção entre finalidade (“para que”) e consequência (“de modo que”) é muito tênue (cf. a forma hifil do verbo hebraico).

2) O segundo problema relacionado às citações das Escrituras no Novo Testamento é que o sentido que elas dão ao Antigo Testamento nem sempre é aquele que a exegese aponta como o sentido originário. Tendo em vista o que dissemos acima, isso não importa. O autor do Novo Testamento não está explicando o Antigo, certamente não de modo histórico-crítico, mas quer mostrar que o Novo Testamento cumpre uma lógica de Deus que, agora, pode ser reconhecida no Antigo. A interpretação do texto antigo é assim “acomodada”, mas isso não tira seu valor como sinal do agir de Deus. O sentido da citação “do Egito chamei o meu filho”, em Mt 2,15, é muito distante daquilo que historicamente Os 11,1 quis dizer, mas como sinal da atuação de Deus na história de Jesus é válido: Deus reverteu o refúgio de Jacó no Egito em êxodo de libertação e, de modo semelhante, agiu em favor do menino Jesus.

De passagem, digamos algo sobre a “profecia”. Geralmente esse termo é entendido como futurologia. Ora, profeta significa “porta-voz”, pouco importa se a respeito do futuro, do presente ou do passado. Enquanto os profetas eram uma instituição com peso político em Israel (antes do exílio babilônico), suas palavras eram geralmente comentários críticos — em nome de Deus — a respeito do presente ou do futuro imediato, dos projetos dos reis etc. Mais tarde, quando o sentido imediato não era mais relevante, em algumas palavras se encontrou um sentido para o futuro, sobretudo em relação ao Messias ou Salvador que devia chegar. A partir daí o termo profecia começou a significar anúncio do futuro. Muitas vezes esse valor futuro só foi reconhecido depois que aconteceu, no “cumprimento das Escrituras” que acabamos de comentar.

6.5. Bem-aventuranças, “mal-aventuranças”, increpações

Também para compreender as bem-aventuranças é útil conhecer o gênero literário. Elas confirmam que tal pessoa está em boa posição diante de Deus, no caminho reto e feliz, abençoado por Deus com prosperidade (hebr. esher). Assim se entende que as bem-aventuranças não ensinam alguma virtude (por exemplo, a pobreza), mas prometem o bem-estar de Deus a pessoas em tal situação, o que pode acontecer exatamente pela mudança da situação (no Reino de Deus os pobres não são mais infelizes, porque reinará a fraternidade). O contrário disso são as increpações, advertências duras, eventualmente introduzidas por “ai”, como nas “mal-aventuranças” que contrabalançam as bem-aventuranças, em Lc 6,24-26. Não são “danações”, mas advertências para que o destinatário mude de rumo.

6.6. Os “evangelhos da infância”

Uma palavra sobre os “evangelhos da infância de Jesus”, como são chamados os capítulos iniciais de Mt e de Lc (Mt 1-2 e Lc 1-2). Além de pertencerem a um gênero que está longe da mera historicidade exterior, esses textos foram ainda sobrecarregados, na memória popular, com elementos apócrifos (por exemplo, os nomes dos reis magos). Aliás, na religiosidade popular muita coisa apócrifa é tida por evangelho!

Ora, Mt 1-2 e Lc 1-2 usam esse gênero de modo bastante diversificado. Em Mt, o essencial é o cumprimento da expectativa do Messias, que pertence à linhagem de Davi mediante José (Mt 1,1-17), mas é fruto da obra do Espírito de Deus em Maria (1,18-25). E nele condensa-se, sendo ao mesmo tempo superada, a história do povo de Israel (Mt2). É narrativa altamente teológica. Também Lc 1-2 é narrativa teológica, baseada nos mesmos elementos da tradição cristã (o nascimento do Messias de Maria virgem). Mas a elaboração é bem diferente da de Mt 1-2. Lc cria um contraste entre o nascimento de João Batista, que pertence à antiga “economia”, e o de Jesus, que inaugura a nova “economia”. Essas histórias, além de transmitirem o dado tradicional do nascimento virginal, ensinam, portanto, toda uma compreensão teológica do acontecimento de Jesus Cristo. Por isso mesmo são chamados de “evangelhos” da infância de Jesus. Prefiguram o evangelho do Jesus adulto.

 7. Atitudes pastorais

Como lidar, na pastoral, com as questões ligadas aos gêneros literários das Escrituras?

7.1. A pastoral dos “fiéis assíduos”

As pessoas que frequentam assiduamente a liturgia dominical são confrontadas com todos os gêneros literários que aparecem no Novo Testamento e com muitos do Antigo. Exatamente essa diversidade facilita o problema. Com a ajuda de uma homilética adequada, os fiéis descobrem por si mesmos a variedade e “elasticidade” da linguagem bíblica.

 7.2. A religiosidade popular

Na religiosidade popular sobrevivem muitas interpretações literalistas de trechos que, pelo gênero literário, deveriam ser entendidos de outra maneira. Ora, não se deve ferir a sensibilidade do povo, especialmente a dos mais simples, que são os preferidos de Deus. Pensamos que a maneira mais indicada para libertar as pessoas de crenças desnecessárias — e que um dia poderão causar descrença geral — é deixar transparecer, delicadamente, a relatividade dessas expressões literárias acolhidas na religiosidade popular e apontar com toda a força aquilo que é essencial. Isso será mais fácil onde existir um ambiente comunitário em que as pessoas se deixem carregar, por assim dizer, pela compreensão da fé que reina na comunidade como tal.

7.3. Os questionadores profissionais

Existe um público especializado em questionar sistematicamente o que se faz e se diz na Igreja. Quem age assim encontra um alimento muito apreciado nos gêneros mais misteriosos, no gênero apocalíptico, nas parábolas, nas histórias da infância de Jesus… — exatamente os trechos preferidos pela religiosidade popular. Convém conscientizar esses questionadores a respeito de si mesmos. Por que questionam? Será porque procuram verdadeiramente compreender melhor sua fé ou porque querem justificar sua falta de prática, sua aversão à Igreja — algo muito comum entre os varões brasileiros influenciados até hoje pelo Iluminismo e pela maçonaria do século XVIII, tempo de Voltaire e do Marquês de Pombal, tempo do anticlericalismo provocado pelo próprio clero? Conscientize-se a pessoa da verdadeira razão de seu ceticismo obsessivo. E não se deve esquecer: em certos casos, vale a antiga sabedoria que reza que um tolo pode fazer mais perguntas do que dez sábios conseguem responder.

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A verdade da Bíblia não está necessariamente naquilo que o texto diz gramaticalmente, mas na realidade escondida para a qual ele aponta ou no efeito que ele produz.

Pe. Johan Konings, sj