Por Tânia da Silva Mayer*

Estima-se que oito mulheres são mortas por dia no Brasil por causa de feminicídio. Em mais da metade dos casos os autores dos assassinatos são membros da família das vítimas e, dentro desses números, mais de trinta por cento dizem respeito ao companheiro ou ao ex companheiro dessas mulheres.

Os crimes de feminicídio se caracterizam por serem praticados a partir da justificativa da desigualdade de gênero. As mulheres são mortas simplesmente por serem mulheres. Nos últimos meses, as mídias têm repercutido casos de mulheres que tiveram suas vidas interrompidas de maneira esdrúxula e com requintes de crueldade por homens que estiveram ao menos alguma vez com elas.

Dentre estas, as mulheres negras estão mais vulneráveis e expostas à sorte de criminosos. É preciso ponderar que em muitos casos antes da consumação da tentativa de assassinato as vítimas foram violentadas psicológica, simbólica ou fisicamente por seus assassinos. Na maioria das vezes essas violências do dia a dia não são registradas na polícia, e acabam sendo varridas para debaixo do tapete.

A sociedade brasileira é herdeira de uma tradição cujas matrizes estão enraizadas numa cultura de elogio aos homens e subalternação das mulheres. Trata-se de uma visão de mundo patriarcal e misógina, que olha com desdém para o feminino ao ponto de considerá-lo inapropriado e digno das mais horrendas situações, inclusive a morte. As religiões cristãs têm enorme responsabilidade nesse cenário, pois o discurso cristão serviu e serve para consolidar uma assimetria qualitativa entre homens e mulheres.

Isso foi e é possível graças às insistentes leituras anacrônicas da Bíblia, aplicadas aos dias atuais, sem nenhum compromisso com o movimento mundial pela igualdade e equidade de gêneros. Uma catequese do tempo das cavernas sobre o assunto continua a ser praticada à margem dos estudos bíblicos e feministas. É como se nada tivesse mudado ao longo do tempo e houvéssemos nos tornado os resquícios arqueológicos de uma sociedade que, de fato, não existe mais.

Ainda nessa perspectiva, é preciso considerar também que muitas comunidades e grupos de cristãos ignoram essa perversa realidade contrária às vidas das mulheres, de modo que suas ações pastorais acabam ocorrendo alienadas das situações concretas das mulheres em face de uma expectativa ideologizada do ser mulher.

Pior que escancarar a parcela de culpa que as religiões carregam é fingir que nada de muito grave está acontecendo na sociedade que está interrompendo drasticamente a existência de mulheres jovens, adultas ou idosas. Lavar as mãos diante desse cenário crescente dos crimes de feminicídio é sujar-se do sangue inocente que jorra de apartamentos e nas vielas de nossos bairros. E sobre lavar as mãos os cristãos entendem bem o que isso significa e o quão comprometedor é fugir à defesa das vidas inocentes.

Nessa perspectiva, não há razões que se façam óbvias que desobriguem comunidades e grupos cristãos de participarem com honestidade de debates e ações coletivas que objetivam a defesa da vida das mulheres. Feminicídio tem cura, mas ela virá lentamente à medida que formos nos educando e educando as gerações futuras para a igualdade e a equidade de gênero, que nada tem a ver, diga-se de passagem, com a supressão de diferenças, como apregoam de má fé os setores conservadores da religião e da sociedade.

Nesse sentido, veem-se urgentes ações pastorais que contribuam para que esse movimento comece a se tornar possível. O primeiro passo seria os presbíteros proporem uma leitura bíblica séria e responsável sobre o tema em suas homilias dominicais e nas catequeses. Promover cursos de leitura popular da Bíblia que proponham leituras contextualizadas de textos bíblicos que abordam a relação entre homens e mulheres.

Um grupo de mulheres, que represente os diferentes rostos das comunidades, poderia ser criado para pensar e articular formações para homens e mulheres sobre saúde, bem viver, violências e direitos humanos, sobretudo, os femininos. Aproveitar datas nacionais e internacionais para prover rodas de conversas e debates com a presença de especialistas com trabalhos reconhecidos na luta pela igualdade e equidade de gêneros.

Outra ação seria promover a paridade de gêneros nas coordenações comunitárias e pastorais, bem como na representação perante os conselhos pastorais. Essas ou outras ações podem ser desenvolvidas com a finalidade de despertar o olhar das pessoas das religiões para os graves crimes que são cometidos hoje contra as mulheres em suas realidades. Fundamental é não lavar as mãos e não calar a voz.

Meter a colher no meio pode salvar vidas. Se você sabe de algum caso de violência contra alguma mulher, denuncie. Disque 180.

Publicado em Dom Total

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.