Produção e edição para o portal SVD-Esdeva: Alessandro Faleiro Marques – Fotos: arquivo pessoal de Pe. Anselmo Ribeiro, SVD.

Nesta semana, o padre Anselmo Ricardo Ribeiro deixa o cargo de superior da província brasil norte (BRN) dos missionários do verbo divino (svd). O religioso assumiu o mandato em 2011, quando tinha apenas 36 anos, sendo um dos mais jovens provinciais de toda a congregação. Ele e seu conselho serão sucedidos pelo pe. Carlos Vieira Lima e um novo corpo de conselheiros, todos eleitos em setembro. Em entrevista ao portal Svd-esdeva, Pe. Anselmo faz um balanço dos dois triênios em que esteve à frente da BRN. O missionário também fala sobre desafios da congregação e da igreja como um todo, diminuição no número de jovens interessados em seguir a vida religiosa e conta uma novidade: a parceria dos verbitas na condução de um canal de tevê educativa.

SVD-Esdeva – Padre Anselmo, depois de seis anos como provincial, conhecendo realidades bem diversas, como o senhor poderia resumir o que é a Província Brasil Norte?

Padre anselmo – Há seis anos, eu tinha muito claro que a província brasil norte deveria ser reconhecida por sua história e seu potencial. Reconhecida por quem? Você deve se perguntar. Reconhecida pela própria congregação do verbo divino, que me dava a impressão de olhar para a sua presença no Brasil como uma unidade, mas não na sua diversidade e riqueza que cada província tem. Sentia que a brn estava apagada no cenário da svd. Era simplesmente uma província antiga. A província Brasil Norte é uma comunidade missionária, marcada pela sua história de mais de 120 anos, com o peso de uma enorme estrutura física e administrativa, grandes distâncias geográficas, mas que deixou o rigor da tradição para buscar uma leveza nas suas relações. A brn tem um número razoável de missionários jovens e também de outros países, isso tem dado um novo tom à sua presença missionária. A província continua sendo desafiada a dar novas respostas missionárias a pessoas e situações de nossos dias, principalmente naquilo que diz respeito à nossa identidade religioso-missionária. Estamos muito confortáveis nos nossos afazeres, e isso tem um preço para o nosso testemunho missionário.

Svd-esdeva – a seu ver, quais foram os maiores avanços na brn durante este tempo em que esteve como provincial?

Padre Anselmo – quando assumi essa função, eu tinha acabado de ver os painéis guerra e paz, de cândido portinari. Em dezembro de 2010, eles foram expostos no teatro municipal do rio de janeiro, antes mesmo de sua restauração. Fiquei impressionado com a linguagem do artista para traduzir as situações de guerra e paz, sendo a primeira marcada pelo tom sombrio e o abatimento das figuras e a segunda, pelo tom claro e na representação do cotidiano das pessoas. Entendi que a forma de viver a paz era construir as condições para que pudéssemos viver nosso cotidiano. O cotidiano de uma província missionária não podia ser marcado pelo cansaço, abatimento e relações em tons sombrios, mas deveria ser a vontade e a alegria de estar juntos para o anúncio do evangelho. Espero que esse tenha sido o principal avanço. Pelo menos foi o nosso propósito, junto ao conselho provincial, animar, coordenar e administrar para que a nossa vida missionária pudesse ter tons de paz e não de guerra. Que cada confrade pudesse voltar ao seu cotidiano missionário, recordando que foi para isto que ele deixou casa, família e, em alguns casos, até o seu país: foi para anunciar a boa-nova de jesus.
“os tempos de estudos ou formação não poderiam me ensinar o tanto que estes anos me ensinaram.”


Svd-esdeva – com base no que viu, quais desafios o senhor acha que o próximo provincial e novo conselho terão de enfrentar no próximo triênio?

Padre Anselmo – Esse processo de responder às exigências do tempo presente e construir uma nova identidade com aqueles que estão dispostos a isso não é tão fácil como contemplar uma obra de arte. É claro que há resistências, das mais diversas e por motivos dos mais variados. O próprio sujeito que propõe mudanças, nesse caso, o provincial, por si só pode constituir-se em uma barreira. Somos todos humanos, e isso é natural. Penso que um dos desafios da próxima equipe de coordenação provincial, o superior e seu conselho, será aproximar-se daqueles confrades com os quais eu não tive muitas facilidades de diálogo. Por isso é bom a alternância na liderança. Outros chegam e podem fazer aquilo que era custoso ao que estava antes. Outro desafio é criar as condições para que o peso das estruturas não consuma tanta energia do próprio conselho. As engrenagens da província e de sua mantenedora, a associação propagadora esdeva, precisam rodar com sua própria força e não pela tração humana, ou seja, pela preocupação constante ou pelas noites mal dormidas do provincial e seu conselho. O terceiro desafio é decorrente desses anteriores. Trata-se de dar atenção primeira à comunidade religiosa. Não podemos oferecer aquilo que não temos. Se não fazemos experiência de fraternidade, não podemos convocar as pessoas para vivê-la a partir das nossas igrejas, colégios ou obras sociais. Eu acredito que podemos ser mais fraternos.

Svd-esdeva – qual aspecto da brn e da igreja como um todo o senhor teve conhecimento como provincial e que o deixou surpreso?

Padre Anselmo – É um pouco complicado o que tenho a dizer, principalmente em relação à igreja. Mas vamos lá, primeiro em relação à brn. Eu disse antes que sentia que a congregação via a nossa província da mesma forma que via as outras, diferenciando apenas que éramos a maior e mais velha do brasil. Talvez eu também tivesse minha visão condicionada a isso. A surpresa veio ao perceber a riqueza que temos em nosso apostolado nas paróquias, escolas e obra social. Muita gente nos identifica pelo nosso trabalho paroquial, muitos leigos percebem a diferença na dedicação e presença que temos junto às suas comunidades. Quando nos tocou deixar alguma missão para assumir outra, era nítida a orfandade que aquelas comunidades sentiam pela nossa saída. Isso me marcou muito e me faz questionar sobre o que fazer para que essas comunidades continuem bebendo da mesma fonte, ou seja, de nossa vida e missão.

Svd-esdeva – e quanto às escolas e obra social?

Padre Anselmo – Em relação aos colégios, eu confesso que não tinha a ideia do campo de missão que eles representam. Você pode imaginar quantas famílias, sejam elas de alunos ou de colaboradores docentes ou técnico-administrativo se relacionam com nossas escolas e faculdades? Isso sem contar o ambiente social onde essas instituições estão inseridas, ou seja, os nossos vizinhos, ex-alunos e outros. Se queremos fazer missão com jovens, com famílias, se queremos dialogar com gente que pensa diferente de nós, temos um campo de missão extraordinário. Arrisco dizer que uma parte significativa dessas comunidades educativas não estão nas paróquias. Quanto à obra social ou à ação solidária, não há dúvida de que temos muitas ações nas paróquias ou colégios, mas temos muito pouco de ação exclusiva, sem intermediação dessas estruturas paroquiais ou educativas. Nossa filantropia é condicionada às regras dos governos e, com isso, nossa ação deixa de ser solidária para atender às exigências de governos ineficazes. A surpresa boa é que pudemos olhar, mesmo que timidamente, para a casa do homem de nazaré como uma ação solidária que deve ser cada vez mais abraçada pela província.

Svd-esdeva – e em relação à igreja?

Padre Anselmo – bem, agora vem o complicado da história. Você me perguntou também sobre a igreja. Tive a oportunidade de visitar os distritos onde atuamos. Quando iniciei o serviço de provincial, eram 16 dioceses, se não me falha a memória. A sensação que tenho é de que cada vez mais encontramos resistências para trabalhar um modelo eclesial voltado para as comunidades, para a formação de lideranças, para a participação dos leigos e leigas na condução da vida das comunidades. A moda agora é espelhar-se nas celebrações da tevê ou das grandes concentrações, é seguir as orientações dos pregadores também da tevê ou do rádio, ou simplesmente identificar-se mais com um grupo externo do que com a própria comunidade local. Nem sei se isso é uma surpresa, mas é uma triste constatação para mim. E ainda acrescento que isso é uma doce tentação para nossos missionários também.

“estamos muito confortáveis nos nossos afazeres, e isso tem um preço para o nosso testemunho missionário.”

Padre Anselmo

Svd-esdeva – um fenômeno vem chamando a atenção na igreja: a diminuição do número de jovens interessados em ser membros de congregações religiosas. Isso ocorreu também na província?

Padre Anselmo – Sim, isso tem acontecido na congregação do verbo divino na América Latina, no Brasil e, claro, na BRN. Acho que algumas coisas vêm influenciando nessa realidade: a dificuldade que os jovens de hoje têm para tomar decisões, e decisões prolongadas, consequentes. A influência dos novos meios de comunicação que nos dão a impressão de conhecer muita coisa, saber tudo ao mesmo tempo e nos colocam em qualquer parte do mundo ou o mundo inteiro à nossa frente. Eu, quando escolhi ser missionário, era para ir ao mundo, romper fronteiras. Hoje, somos levados a crer que não existem fronteiras, que tudo cabe dentro do nosso celular ou que pode ser marcado por uma “hashtag”. Mas as fronteiras ainda existem. Além disso, penso que já não se faz mais a experiência de deus, ou cada vez menos se faz essa experiência. Se antes a fazíamos em casa, com a família ou por meio do comprometimento social, por uma causa maior, ou ainda pela tradição de minha cultura, do grupo ou sociedade em que vivia, hoje se vive teleguiado pelas mensagens instantâneas que impedem de viver o real, conversar com quem está do lado, experimentar a dor ou a alegria do outro. Famílias vão perdendo a identidade, pais e filhos vão confundindo os seus papéis, a comunidade cristã não instiga. Você já viu um grupo de pessoas caçando pokemon? Estão teleguiados, sabe-se lá por quem… é angustiante.

Svd-esdeva – o que o senhor sugeriria à congregação para que mais jovens se interessassem em ser missionários verbitas?

Padre Anselmo – Para mim, a congregação do verbo divino precisa rever o seu convite. O apelo não é mais a possibilidade de ir a outro país ou cultura, isso é muito fácil nos dias de hoje. Mas deve ser algo que esbarre na radicalidade, na fraternidade, na interculturalidade como sinal para os nossos tempos. O problema é descobrir o que é radical, fraterno e intercultural e qual o valor disso tudo para nossos dias. É preciso deixar as luzes, as cores e os sons para voltar a fazer a experiência de Deus. Sem essa experiência, fica muito difícil surgir vocações para a vida religiosa e missionária.

Svd-Esdeva – Os verbitas têm um histórico de envolvimento com a comunicação. O lar católico, por exemplo, marcou época na igreja do brasil, mas acabou extinto. Agora, os verbitas voltam a ser protagonistas ao assumirem uma rede de televisão. Afinal, o que é esse projeto?

Padre Anselmo – Espere aí, vamos devagar. Sim, desde 1911, iniciamos formalmente na província o apostolado nos meios de comunicação. Estamos falando de um apostolado que, por décadas, caminhou ao lado daquele da educação. Em determinado momento, priorizou-se a educação e, por motivos que até hoje não tenho bem claros, abriu-se mão da boa imprensa. Você fala que vamos assumir uma rede de televisão. Tomara que um dia cheguemos a isso. Firmamos uma parceria com uma fundação sediada em Barbacena (mg), que é detentora de uma concessão de geração para uma tevê educativa. Os representantes dessa fundação nos procuraram por entender que temos condições de atuar nesse meio, sobretudo por meio de nossa presença na educação básica e superior, e pelos valores do evangelho que demarcam nossa ação missionária. Em princípio, o alcance dessa tevê aberta vai restringir-se a dez cidades no entorno de Barbacena. Aceitamos a parceria por entender que esta é a oportunidade de voltar a conjugar educação e meios de comunicação e que essa plataforma é muito propícia para chegarmos até muitas outras famílias ou jovens que estão além de nossas paróquias, escolas e obras sociais.

Svd-esdeva – o que o senhor faria diferente se tivesse chance de voltar ao início de seu ministério como provincial?

Padre Anselmo – Tentaria sofrer menos para dizer não. É muito difícil dizer não, mas é muito necessário dizê-lo. Eu demorei para entender que, neste ministério, é preciso ser um pouco de pai. Eu só queria ser irmão e por isso me custava dizer o não, afinal eu era um dos irmãos mais novos. Talvez se José tivesse aprendido o não, seus irmãos mais velhos não o teriam vendido. Lembra da história do José do Egito? Eu precisei aprender a dizer não, mas não é fácil.

“se não fazemos experiência de fraternidade, não podemos convocar as pessoas para vivê-la a partir das nossas igrejas, colégios ou obras sociais.”

Padre Anselmo Ribeiro

Svd-esdeva – o que o senhor gostaria de ter feito, mas não foi possível?

Padre Anselmo – Gostaria de ter dedicado tempo ao projeto missionário da província. Construímos um bom projeto, mas ele não entrou de forma consciente na nossa vida. Levamos adiante, porém muito mais como iniciativa do conselho provincial do que como algo importante para cada confrade. Gostaria de ter me dedicado às dimensões características da nossa missão: Animação Missionária, Bíblia, Comunicação e Jupic (justiça, paz e integridade da criação), repensando esse modelo que a congregação nos apresenta e que, para mim é muito burocrático. Gostaria de ter trabalhado para que as dimensões tivessem mais vida e menos relatórios, orçamentos, publicações, etc. Também gostaria muitíssimo de ter me dedicado aos grupos de leigos associados à svd. É algo que já acontece em outras províncias da congregação pelo mundo afora e nós, aqui, sequer refletimos sobre isso. Lembra quando eu falei das comunidades ou leigos que se sentem órfãos depois de um tempo de vivência conosco, quando nós deixamos alguma missão? Penso que esse poderia ser um caminho para que esses leigos e leigas pudessem continuar a viver a sua missionariedade baseada em nosso carisma.

Svd-esdeva – o senhor já pensou em seus projetos missionários para os próximos anos?

Padre Anselmo – Olha, não dá para se pensar muito adiante quando se está cansado. Eu estou assim, contando as horas para uns dias de férias. Férias mesmo, desligado de muita coisa. Tenho conversado com o provincial e seu conselho sobre a necessidade que tenho de me atualizar. Estou com 11 anos de ordenação, e nos últimos seis anos me dediquei exclusivamente à província. Está na hora de voltar a estudar um pouco, perceber como as pessoas pensam, quais as respostas podemos dar como missionários, como homens de fé, a essas pessoas. Quando fui eleito provincial, tive de deixar os estudos em comunicação social. De lá para cá, não tive condições de me aprofundar em nada mais. O que posso lhe dizer é isso, preciso me atualizar. Como? Em quê? Isso vai depender da necessidade da província, e o provincial e seu conselho saberão me dizer isso. Por isso também não tenho nada definido ou fechado. Vou descansar primeiro.

Svd-esdeva – como sua experiência como provincial poderá ser importante em sua caminhada como religioso?

Padre Anselmo – foram seis anos como provincial e mais três como conselheiro, ou seja, foram nove anos dentro do conselho provincial. Uma experiência que cada religioso devia ter por, pelo menos, três anos. Tomamos conhecimento da vida da província e dos confrades a partir de outro ângulo. Isso é muito bom e nos obriga a mudar o ponto de vista, a deixar preferências, amizades ou desconfianças. É um exercício de discernimento coletivo, uma atenção ao que o espírito santo está dizendo por meio de determinada situação e das reflexões dos seus companheiros. Os tempos de estudos ou formação não poderiam me ensinar o tanto que estes anos me ensinaram. Guardo também a experiência do capítulo-geral da congregação, onde mais de 6 mil membros da SVD estavam ali representados por um grupo de 100 ou 150 capitulares que chegaram dos cinco continentes para discernir, ouvir o que o espírito santo tinha a dizer para a congregação. Era um mar de palavras e reflexões revolvidas em sotaques e culturas das mais diversas. Digo tudo isso para concluir que ninguém sabe tudo e que, sozinho, é muito mais difícil acertar. Aprendi pelo exercício do diálogo, da gratuidade e do discernimento comum. Espero que isso seja muito útil na minha vida consagrada.

Svd-esdeva – já nestes últimos dias de ministério como provincial, qual mensagem o senhor daria aos verbitas, inclusive aos que iniciam a caminhada na congregação?

Padre Anselmo – Vu dizer em carioquês: “tamojunto”, ou seja, estamos juntos na missão. A missão é de Deus, e nós somos colaboradores. Pequenos colaboradores. É o senhor quem nos chama, capacita e nos envia para a missão. Com um pouco de generosidade da nossa parte, com um sim gratuito e um testemunho sincero, Deus pode fazer muito mais através de nós.

Pe. Carlos vieira lima e um novo corpo de conselheiros, todos eleitos em setembro. Em entrevista ao portal svd-esdeva, pe. Anselmo faz um balanço dos dois triênios em que esteve à frente da brn. O missionário também fala sobre desafios da congregação e da igreja como um todo, diminuição no número de jovens interessados em seguir a vida religiosa e conta uma novidade: a parceria dos verbitas na condução de um canal de tevê educativa.