Publicado em Opinião e Notícias – Arquidiocese de Belo Horizonte.

Aproximamo-nos do Tempo da Quaresma, tempo marcado pela oração, jejum, penitência e esmola, conhecido também como “tempo forte”, porque nos fortalece como homens e mulheres de fé em nossa configuração a Cristo.

Configurar-se a Cristo não consiste em realizar determinadas práticas devocionais e espirituais neste tempo santo, mas sobretudo em acolher a vida de Deus que perpassa o cotidiano de nossas vidas.

Oração, jejum, penitência e esmola, ressaltados no período quaresmal, são partes essenciais da vida cristã, evidenciadas de maneira especial neste período quaresmal, somente nos santificam à medida em que vividas no dia-a-dia de nossas vidas. A oração que nos leva à comunhão com Deus, só tem sentido se encontra espaço na horizontalidade da vida, onde encontramos nossos irmãos e irmãs. Neles vemos o rosto de Cristo pobre, sempre a nos dizer “tenho sede”(Jo 19,28), e nisso se manifesta a esmola, que não é dar aquilo que me sobra ou que não me serve, mas partilhar com o outro aquilo que me pertence.

Do mesmo modo o jejum e a penitência, não são vividos para nos fortalecer enquanto meros indivíduos egocêntricos que adentram em uma disputa contra si mesmos e saem vitoriosos após quarenta dias da quaresma com o troféu do “Eu consigo”, do “Eu posso”!

Jejum e penitência mais do que práticas de exercícios exteriores, são exercícios interiores que direcionam nossa vontade, ao querer de Deus, portanto, só têm sentido se contribuem para o crescimento e realização em nós daquela imagem icônica com a qual Deus nos vê e que somos chamados a ser. Não adianta ficarmos quarenta dias sem comer chocolate por exemplo, se no domingo de Páscoa, comeremos sozinhos uma caixa, prejudicando nossa saúde.

Os exercícios quaresmais, têm como foco, nos ajudar a não sermos homens e mulheres de desejos imediatos, mas a crescermos na liberdade e maturidade própria dos filhos e filhas de Deus. Todos, somos chamados a “atingir o estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4, 13), mas este estado não o atingimos como indivíduos, que se relacionam com Deus, apenas para suprir suas necessidades, porque como cristãos, somos um Corpo, o de Cristo que é a Igreja.

Hoje, nos encontramos diante de tantas propostas imediatistas que nos são oferecidas como bem-estar, mas que no fundo nos acorrentam à ditadura do egocentrismo, onde somente o eu, é importante e ninguém mais. Torna-se necessário o testemunho daquela verdadeira comunhão que supere o “nós” ideológico e totalitário que anula a individualidade, de modo que, a vida humana redimida, capaz de acolher o outro na sua diferença no amor manifeste ao mundo o verdadeiro sentido de ser Igreja.

Juntos nesta caminhada quaresmal, temos a oportunidade ímpar de testemunharmos como Igreja que aprendemos da liturgia, a acolhida da redenção de Cristo no cotidiano da vida. Por isso, como redimidos podemos sempre escolher pelo primado da Vida de Deus em nós começando por pequenas renúncias como uma penitência quaresmal, que nos ajudará mais tarde a renuncias maiores como esquemas e situações injustas que prejudicam nossos semelhantes e toda a criação.

Que a nossa preparação para a Páscoa não seja alicerçada em práticas externas e vazias que não transformam o nosso interior, mas seja acolhida da Vida de Deus que se manifesta naqueles e naquelas que estão ao nosso lado nas situações corriqueiras do dia-a-dia. É inútil procurar Deus do lado de fora, se ele habita dentro. Um sorriso, um olhar que enxerga a alma, uma palavra, um silêncio, o não compactuar com situações de injustiça, são portas que se abrem, permitindo a Ele que habita dentro de nós de manifestar sua luz que nos ilumina de dentro para fora comunicando a todos sua presença.
Santa Quaresma a todos!

Padre Mateus Lopes
Eestudante de Teologia Dogmática
na Universidade Gregoriana-Roma

Sugestão: Assistir ao filme Chocolat. O filme nos ajuda a refletir, sobre o verdadeiro sentido da vida cristã a partir do amor e da caridade. Nossos gestos e orações manifestam que vivemos como homens e mulheres redimidos, ou nossa vivência religiosa é feita de preceitos vazios e automáticos incapazes de manifestar a Vida de Deus em nós?

Um Filme para alegrar os corações chocólatras! O longa Chocolat (Chocolate em português) com interpretações de grandes atores como Juliette Binoche, Johnny Depp e Judi Dench se passa no ano de 1959 em um pequeno vilarejo (fictício) na França chamado Lansquenet. A atriz Juliette Binoche foi indicada para o Oscar de melhor atriz pelo filme. Binoche faz o papel de Vianne Rocher, uma mãe solteira que viaja levando o chocolate e os seus conhecimentos sobre o cacau pelo mundo. O filme mostra uma mulher sem preconceitos, uma nômade que segue o vento por onde vai com a sua filha Anouk – o vento as guia. Vianne chega ao vilarejo e encontra o desafio de persuadir os moradores com o chocolate em plena Quaresma.

Fonte site: https://www.daninoce.com.br/gastronomia/cinema-comida/filme-chocolate/