Durante o Consistório Ordinário Público realizado na manhã desta segunda-feira, o Santo Padre anunciou que os beatos serão canonizados, no Vaticano, durante o Sínodo para a Amazônia.

O Papa Francisco presidiu, nesta segunda-feira (1º/07), na Sala Clementina, no Vaticano, o Consistório Ordinário Público para a Canonização de cinco Beatos, dentre os quais Irmã Dulce Lopes Pontes. Durante o Consistório, o Santo Padre anunciou a data de canonização dos cinco beatos. Será no domingo, 13 de outubro próximo. 

O papa havia autorizado, em 13 de maio de 2019, durante audiência com o cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação das Causas dos Santos, o decreto que reconhece o milagre, atribuído à intercessão da beata Dulce Lopes Pontes. Conhecida como “O anjo bom da Bahia”, é recordada por sua obras de caridade e de assistência aos pobres e necessitados.  Sua beatificação foi em 22 de maio de 2011.

Além de Irmã Dulce, serão canonizados os seguintes beatos: John Henry Newman, cardeal, fundador do Oratório de São Filipe Néri na Inglaterra; Giuseppina Vannini (no século Giuditta Adelaide Agata), fundadora das Filhas de São Camilo;  Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, fundadora da Congregação das Irmãs da Sagrada Família e Margherita Bays, Virgem, da Ordem Terceira de São Francisco de Assis.

O arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, falou da “alegria imensa pela canonização da nossa pequenina, humilde e batalhadora Irmã Dulce dos pobres”.

Dom Murilo Krieger

“Será uma ocasião de encorajamento a todos para buscar a santidade. Irmã Dulce veio nos dizer que cada época tem seus santos, mas todos têm em comum o amor a Deus, o amor ao próximo e a dedicação, especialmente aos preferidos de Jesus, os mais pequeninos”.

Milagre

O segundo milagre atribuído a irmã Dulce e que lhe garantiu a canonização foi a cura da cegueira de um homem. Foi o maestro Maurício Moreira, de 50 anos.

“Em 2014, eu tive uma conjuntivite e um derrame no olho. Sentia muita dor e não conseguia dormir. Eu peguei a imagem de Irmã Dulce, encostei no olho e pedi com muita fé que ela ajudasse a acabar com aquela dor. Eu não pedi pra voltar a enxergar. Só queria dormir sem dor. Após a oração eu bocejei e dormi. Quando acordei, minha esposa tinha colocado umas compressas no meu olho e quando eu fui tirando eu vi os vultos da minha mão”, disse.

Coletiva de imprensa organizada pela Arquidiocese de Salvador e as Obras Sociais Irmã Dulce

Maurício conta que teve glaucoma e começou a perder a visão em 1999. Conforme relatou, em 2000 ele já estava cego. Mas, em 2014, foi agraciado.


Foto: Maiana Belo/G1

“Três semanas depois [de ver o vulto da mão] eu comecei a enxergar de vez. Liguei para o médico [que estava me acompanhando] e disse: ‘Está acontecendo algo estranho no meu olho’. O médico mandou eu ir na clínica, quando ele chegou eu disse que estava enxergando. Ele me examinou e disse que não sabia explicar o que aconteceu e disse: ‘Foi Deus’. E eu disse: ‘Deus e Irmã Dulce’”.

Validado pelo Vaticano, o milagre passou por três etapas de avaliação: uma reunião com peritos médicos (que deram o aval científico), com teólogos, e, finalmente, a aprovação final do Colégio Cardinalício, tendo sua autenticidade reconhecida de forma unânime em todos os estágios. Uma graça só é considerada milagre após atender a quatro pontos básicos: a instantaneidade, que assegura que a graça foi alcançada logo após o apelo; a perfeição, que garante o atendimento completo do pedido; a durabilidade e permanência do benefício e seu caráter preternatural (não explicado pela ciência).

Vida

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontesnasceu em 26 de maio de 1914 em Salvador, Bahia. Aos seis anos perdeu sua mãe, sendo educada por suas tias. Aos 13 anos, uma delas a levou para conhecer as áreas mais pobres da cidade, fato que despertou nela uma grande sensibilidade. Aos 18 anos ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, onde começou a ser chamada Dulce.

Uma das inspirações para o discernimento de sua vocação foi a vida de Santa Teresinha do Menino Jesus. “A exemplo de Santa Teresina, penso que todos os pequenos atos de amor, por menores que sejam, agradam ao Menino Jesus”, dizia.  Assim, seus pequenos atos de amor foram traduzidos em grandes obras sociais. Irmã Dulce fundou a União dos Trabalhadores de São Francisco, um movimento cristão de trabalhadores na Bahia. Iniciou depois a acolher pessoas doentes em casas abandonadas em uma ilha em Salvador da Bahia. 

Mais tarde, foram despejados e a religiosa transferiu a estrutura de acolhida para um antigo mercado de peixe, mas foi obrigada a abandonar o local. Assim, o único lugar onde ele poderia acomodar mais de 70 pessoas que precisavam de assistência médica era o galinheiro do convento onde vivia, que rapidamente transformou-se em um hospital improvisado.

Assim começou a história de outra de suas fundações: o Hospital Santo Antônio, inaugurado oficialmente em maio de 1959, com 150 leitos. Atualmente, recebe 3 mil pacientes por dia. Hoje, suas fundações são conhecidas como as Obras Sociais de Irmã Dulce (Osid)

Nos últimos 30 anos de vida, a saúde da irmã Dulce estava muito debilitada. Ele tinha apenas 30% da capacidade respiratória. Em 1990 começou a piorar e por 16 meses permaneceu hospitalizada, oportunidade em que recebeu a visita do papa João Paulo II, com quem havia tido uma audiência privada 10 anos antes.

Ela foi transferida para o Convento de Santo Antônio, onde veio a falecer em 13 de março de 1992. Milhares de pessoas em condições de extrema pobreza reuniram-se para dar a ela o último adeus.

Seu corpo foi transferido para a Igreja da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, onde se descobriu que ele havia permanecido incorrupto. O milagre que permitiu sua beatificação ocorreu em 2001. Este fato foi a confirmação de uma vida virtuosa, centrada na oração e na caridade, a partir das menores coisas. “O amor supera todos os obstáculos, todos os sacrifícios”, disse a irmã Dulce.

O arcebispo da Arquidiocese de Salvador, anunciou uma programação especial para celebrar a canonização: “Irmã Dulce deixou uma obra que agora precisa ser continuada. Dia 13 de outubro vamos participar da missa presidida pelo Papa Francisco. No dia 14, haverá uma missa na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses (Roma) em ação de graças pelo dom que Salvador, a Bahia e o Brasil estão recebendo. No dia 20, às 16h, na Arena Fonte Nova (Salvador-BA), vamos presidir a missa em honra daquela que já estará nos altares”.

Vatican News / Dom Total / G1 Bahia