Daí a importância da coroação de Nossa Senhora. Ela toca o coração inocente das crianças que se encantam do rito, do canto, da roupa, do conjunto gestual, de participar desse mundo diferente, bonito, de pureza. Tão diferente das misérias que elas vêem e sofrem a seu lado.

Os símbolos resistem à história que os gerou. Coroa, coroação remontam à Antigüidade. Vêm do Oriente. Os orientais amam as pompas, os ritos, as solenidades longas e festivas. O Ocidente romano opta pela sobriedade. Mas mesmo assim deixou-se seduzir freqüentemente pelas belezas do Oriente.

Conhecemos coroações de reis, imperadores, papas. Paulo VI, ao despojar-se da tiara, doando-a aos pobres, encerrou a longa tradição de coroação de papas. As coroas simbolizam também vitórias desportivas ou literárias, triunfos militares, manifestações do poder e da divindade. Há as simples, como a coroa de louros.

As coroações de reis quase desapareceram. As democracias criaram uma conferição de poder absolutamente secularizada e despojada do esplendor das entronizações antigas. Entre os imperadores, sagrados nos ritos litúrgicos, estão os nossos dois Pedro I e II.
A coroação, no entanto, permanece viva na fantasia, especialmente infantil. Daí a importância da coroação de Nossa Senhora.

Ela toca o coração inocente das crianças que se encantam do rito, do canto, da roupa, do conjunto gestual, de participar desse mundo diferente, bonito, de pureza. Tão diferente das misérias que elas vêem e sofrem a seu lado. A coroação arrebata-as para um nimbo suave e agradável. E os adultos, que não perderam a dimensão simbólica da vida, vivenciam com gozo tal momento litúrgico. O visível da inocência terrestre a coroar a Virgem do Céu arranca-os da realidade tão pouco inocente e tão longe do céu. A coroação de Nossa Senhora pertence ao patrimônio espiritual da Igreja. Mantê-la viva resguarda riqueza da alma religiosa brasileira.

A presença da Virgem Maria na vida e cultura do povo, malgrado o solapamento que vem sofrendo por parte de crentes influenciados por ondas de outra cultura e origem, permanece um valor, independentemente de devoções pessoais. Vibra a corda interior que nos torna a vida mais humana, sensível, poética. Eleva-nos de cotidiano desgastante e estressante para a presença do mistério. Maria simboliza, na sua realidade de Mãe de Jesus e de seus seguidores, o necessário lado feminino da fé e da religião.

Sob esse ângulo, a coroação de Maria oferece-nos um gancho para relacioná-la com o dia das mães. Há um jogo de distância e proximidade entre ambos. A coroação encontra em passado longínquo sua origem e por isso nos deixou marcas indeléveis no imaginário. Institui-se o dia das mães, em data recente, ligado a interesses comerciais. No entanto, ambas encontram-se no mais profundo do inconsciente humano. Coroação e mãe traduzem arquétipos, cujo conteúdo de imagem e de símbolo mexe com o inconsciente social, compartilhado por toda a humanidade. E a força desses símbolos aparece nas estórias infantis, nos mitos e nas lendas do povo e toca o interior de cada um de nós. Quem não deixa de sonhar, imaginar e sentir desejos elevados quando lhe soa a palavra mãe, lhe desenha a imagem da coroa ou lhe vem a recordação das coroações da infância? Necessita ter sido estragado simbolicamente para secar-se diante de tal manancial imagético.

A ressonância do termo mãe nem sempre corresponde à realidade concreta da mãe de carne que se tem. Mas o fato de sua alta força simbólica provoca duplo efeito positivo. Estimula as mães a realizarem na vida real aquilo que o mito mãe criou delas. Ter diante de si um horizonte amplo ajuda-as a andar em sua direção. O ser humano carece de ideais para prosseguir a caminhada no meio das dificuldades. Custa ser mãe hoje. Elas precisam dessa mola simbólica que as anime e fortaleça.

A imagem idealizada da mãe contribui para despertar nos filhos energias espirituais de crescimento humano. Esse amor tem dimensão espontânea de gratuidade e serve para mantê-los em atitude semelhante em relação aos irmãos e aos outros.

Coroar Maria hoje significa mais do que simples ato de piedade tradicional. Tem alcance religioso e simbólico que humaniza uma cultura em vias de perder a sensibilidade para realidades superiores e de afundar-se no hedonismo materialista.

João Batista Libanio

João Batista Libanio foi um padre jesuíta, escritor e teólogo brasileiro.

19/02/1932 –

30/01/2014