Tânia da Silva Mayer* – Publicado originalmente em Dom Total

Quem pode hoje falar sobre os pobres e defender os direitos deles sem ser tachado de comunista ou de socialista? É estarrecedor que o simples fato de tocar no nome dos pobres seja motivo para as acusações violentas de diferentes espécies. É como se eles tivessem se tornado uma bandeira panfletária, de modo que quem está em favor de uma vida mais digna para os pobres é alinhado imediatamente a uma ideologia de esquerda.

Ao final de uma palestra fui questionada se minha fala que conclamava à postura evangélica de Jesus Cristo para com os pobres era, de fato, fruto da minha fé ou de uma bandeira política. Eu mencionei diversas vezes durante a fala que a opção preferencial pelos pobres feita pelos cristãos era fruto de uma conversão ao Evangelho, num processo de imitação do próprio Jesus e do que ele realizou durante sua vida, no encontro com os que estavam à margem da sociedade da época e da religião judaica. Portanto, a suspeita era um tanto quanto estranha.

A fé cristã ensina que os pobres estão no horizonte missionário de Jesus, ademais, eles são os destinatários privilegiados da boa-nova do Mestre. O Reino vem ao encontro de cada um deles, tornando-se a única oportunidade de experimentarem uma vida verdadeiramente digna. É importante considerar que os pobres ou os excluídos que são destacados na Escritura Sagrada são aqueles cujas vidas se encontram desprotegidas e ameaçadas. Por isso, uma leitura da Escritura colocada em confronto com a realidade brasileira nos permitirá considerar que o grupo dos pobres é numeroso em nosso país.

Ademais, uma das peculiaridades do cristianismo consiste na fina compreensão de que a fé no Deus de Jesus não pode prescindir da história e das relações entre as pessoas. E isso é possível afirmar porque foi na vida desse homem que Deus se envolveu diretamente com o mundo. Por isso, é errôneo desvincular a fé das situações da vida, ou melhor dizendo, é um erro desvincular a fé de uma postura política – política entendida aqui como a busca pelo bem comum que perpassa os sistemas políticos da sociedade.

Desse modo, os cristãos quando optam pela promoção da vida dos pobres alinhados ao Evangelho não o fazem de modo alienado da duríssima realidade que esses enfrentam na sociedade brasileira. Sem o confronto com a história, a caridade torna-se alienada e faz bem apenas para aqueles que a praticam, e os pobres passam a servir de massagem para um ego diabólico travestido de cristianismo. No fim, é tudo aparência. A libertação efetiva de quem vive em situação de pobreza consiste não somente na assistência imediata de suas necessidades fundamentais, mas na transformação das estruturas que os colocam nessas condições degradantes de vida. Visto que desde Jesus Cristo já se superou a afirmação de que a pobreza é consequência do pecado e, nesse sentido, castigo de Deus.

Os tempos que estamos vivendo e o modelo sociocultural vigente travaram uma luta contra os pobres. O número dos que se encontram em situações miseráveis em nosso país cresce a cada dia, e não somente as estatísticas comprovam essa triste realidade, mas já é possível ver muito próximo a nós pessoas vivendo de maneira degradante. Para ver, basta não fechar os olhos e maquiar a realidade. E essa configuração da sociedade é um escândalo humano e cristão.

A perversidade do sistema é tão absurda que pode chegar a naturalizar a pobreza com comparações do tipo: “Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo” (fala do atual ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista para a Folha de S. Paulo). Quando se ouve tais absurdos, é importante ressaltar que os pobres gastam tudo porque tudo o que ganham é muito pouco para a sobrevivência.

Por isso, os cristãos e as pessoas de boa vontade devem se posicionar criticamente com relação a essa realidade de perversidade contra os pobres. A não virada crítica consiste na animalização do humano e na negação de Deus, cuja glória consiste na realização da vida plena de todas as pessoas, sobretudo dos menores do povo. A miséria não pode deixar de escandalizar, mas é urgente superar essa consciência na proposição afetiva de um novo modelo social no qual a vida dos pobres possa ser mais numa libertação verdadeira e total.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG.