No domingo em que a Igreja Católica celebra o Bom Pastor, o papa Francisco meditou durante oração Regina Coeli, feita na biblioteca do Palácio Apostólico no Vaticano, sobre o conflito de interesses no pensamento cristão. No texto, o pontífice analisa como  fazer para distinguir a inspiração de Deus da sugestão do maligno. Devido às restrições da quarentena, o papa optou por realizar

“A voz do inimigo distrai do presente e quer que nos concentremos nos medos do futuro ou na tristeza do passado, o inimigo não quer o presente: faz brotar a amargura, as recordações dos erros sofridos”, afirma o papa.

Tambem  neste domingo, em meio à perplexidade que o coronavírus semeou, Francisco comentou sobre o 57º Dia Mundial de Oração pelas Vocações. O líder dos católicos rezou por aqueles que responderam ao chamado do Senhor, servindo-o com fidelidade e amor. “Sacerdócio e vida consagrada exigem coragem e perseverança”, disse o papa.

Leia o  Regina Coeli deste domingo 03 de maio:

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

O quarto domingo de Páscoa, que celebramos hoje, é dedicado a Jesus  Bom Pastor. O Evangelho diz: “As ovelhas ouvem a sua voz: ele chama as ovelhas pelo nome” (Jo 10, 3). O Senhor nos chama pelo nome, nos chama porque nos ama. Porém, diz ainda o Evangelho, há outras vozes a não serem seguidas: as de estranhos, ladrões e malfeitores que querem o mal das ovelhas.

Essas diferentes vozes ressoam dentro de nós. Há a voz de Deus, que gentilmente fala à consciência, e há a voz tentadora que induz ao mal. Como fazer para reconhecer a voz do Bom Pastor e a do ladrão, como fazer para distinguir a inspiração de Deus da sugestão do maligno?

Pode-se aprender a discernir essas duas vozes: na verdade, elas falam duas línguas diferentes, ou seja, têm maneiras opostas de bater em nosso coração. Falam línguas diferentes. Mas assim  como nós sabemos distinguir uma língua da outra, também podemos distinguir a voz  de Deus e a vos do maligno.

A voz de Deus nunca obriga: Deus se propõe, não se impõe. Em vez disso, a voz ruim seduz, assalta, obriga: suscita ilusões deslumbrantes, emoções tentadoras, mas passageiras. No início persuade, nos faz acreditar que somos onipotentes, mas depois nos deixa vazios por dentro e nos acusa: “Tu não vales nada”.

A voz de Deus, pelo contrário, nos corrige, com muita paciência, mas sempre nos encoraja, nos consola: sempre alimenta a esperança. A voz de Deus é uma voz que tem um horizonte. A voz do mal, por outro lado, te leva para um muro, te leva para um canto.

Outra diferença. A voz do inimigo distrai do presente e quer que nos concentremos nos medos do futuro ou na tristeza do passado, o inimigo não quer o presente: faz brotar a amargura, as recordações dos erros sofridos, daqueles que nos fizeram mal e tantas más recordações.

Em vez disso, a voz de Deus fala no presente: “Agora podes fazer o bem, agora podes exercitar a criatividade do amor, agora podes renunciar aos arrependimentos e aos remorsos que mantem prisioneiro o teu coração”. Nos anima, nos leva em frente, mas fala no presente: agora!

E ainda: as duas vozes suscitam em nós questionamentos diferentes. A que vem de Deus será: “O que me faz bem?”. Em vez disso, o tentador insistirá em outra pergunta: “O que eu gostaria de fazer?”. O que eu quero! A voz ruim sempre gira em torno do eu, suas pulsões, suas necessidades, ao tudo e imediatamente. É como os caprichos das crianças, tudo e agora.

A voz de Deus, pelo contrário, nunca promete a alegria a baixo preço: nos convida a ir além de nosso eu para encontrar o verdadeiro bem, a paz. Lembremo-nos: o mal nunca dá paz, antes provoca o frenesi e depois deixa a amargura. Este é o estilo do mal.

Por fim, a voz de Deus e a do tentador falam em “ambientes” diferentes: o inimigo prefere as trevas, a falsidade, a fofoca; o Senhor ama a luz do sol, a verdade, a transparência sincera.

O inimigo nos dirá: “Fecha-te em ti mesmo, ninguém te entenda e te ouve mesmo, não confie!”.  O bem, pelo contrário, nos convida a nos abrir, a sermos límpidos e confiantes em Deus e nos outros.

Queridos irmãos e irmãs, neste momento, tantos pensamentos e preocupações nos levam a reentrar em nós mesmos. Prestemos atenção às vozes que chegam ao nosso coração. Perguntemos de onde elas vêm. Peçamos a graça de reconhecer e seguir a voz do Bom Pastor, que nos fará sair dos recintos do egoísmo e nos conduz às pastagens da verdadeira liberdade.

Que Nossa Senhora, Mãe do Bom Conselho, oriente e acompanhe nosso discernimento.

Vocações

Em meio à pandemia, à dor pela perda de entes queridos, amigos, colegas, e à perplexidade que o coronavírus semeou, a Igreja nos convida neste Domingo do Bom Pastor a rezar por aqueles que responderam ao chamado do Senhor, servindo-o com fidelidade e amor. “Sacerdócio e vida consagrada exigem coragem e perseverança”, disse o Papa Francisco, após rezar o Regina Coeli:

Celebra-se hoje o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. A existência cristã é sempre e toda ela uma resposta ao chamado de Deus. Este Dia nos recorda o que Jesus disse um dia, ou seja, que a messe do Reino de Deus exige muito trabalho, e devemos rezar ao Pai para enviar operários para trabalhar em sua messe. Sacerdócio e vida consagrada exigem coragem e perseverança; e sem a oração não se vai em frente nesse caminho. Convido todos a invocar do Senhor o dom de bons operários para o seu Reino, com o coração e as mãos disponíveis ao seu amor.

Para o 57º Dia Mundial de Oração pelas Vocações celebrado neste Domingo do Bom Pastor, o Papa Francisco escreveu uma mensagem focada no tema: “As palavras da vocação”, divulgada em 8 de março.

São quatro as palavras-chave que o Papa Francisco propõe na Mensagem para este Dia: uma referência à Carta aos Presbíteros do ano passado por ocasião do 160º aniversário da morte do Santo Cura d’Ars. As palavras são dor, gratidão, coragem e louvor: expressões mais atuais do que nunca, devido à emergência que estamos enfrentando.

Oração pelas vocações em todo o mundo mundo

O dia é celebrado de várias maneiras nos diferentes países.  Em Portugal, por exemplo, o bispo do Porto, dom Manuel da Silva Rodrigues Linda, convidou os jovens a rezar para “aquecer o coração” daqueles a quem encontrarem. Na Irlanda, o dom Alfonso Cullinan, bispo de Waterford e Lismore, convidou a rezar para se ter a coragem de dar o sim ao chamado do Senhor.

“Que seja despertada em todos a necessidade de responder ao chamado que o Senhor nos faz para servir em sua Igreja”, exorta por sua vez o episcopado da Colômbia. Na Espanha, o convite é para rezar em casa. “Lançar as redes” é o lema que guiou dois dias de oração pelas vocações na Alemanha.

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