Uma leitura da primeira carta de João 4,1-6

Por Shigeyuki Nakanose – Publicado originalmente em Vida Pastoral.

São Oscar Romero (1917-1980) foi um bispo comprometido com a caminhada do povo de El Salvador. Viveu seu ministério num período de grande repressão e mortes nesse país. Em suas homilias dominicais, manifestava sua solidariedade com as vítimas da violência política e socioeconômica. Foi assassinado durante a celebração eucarística, no dia 24 de março de 1980, por um atirador de elite do exército salvadorenho. Na véspera de sua morte, fez a seguinte exortação: “Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, eu lhes peço, eu lhes suplico, eu lhes ordeno: cessem a repressão”.

Introdução

São Oscar Romero, com sua prática de vida, testemunhou a encarnação em 14 de outubro de 2018. Tal testemunho mostra seu seguimento cristão radical: embora fosse perseguido, caluniado, difamado, permaneceu fiel até o fim. Ele recebeu críticas, calúnias e violência até mesmo de pessoas cristãs no seio das comunidades. Eram cristãos que não seguiam o Jesus da história, o Messias encarnado, e seu mandamento do amor ao próximo.

Deus se encarna em Jesus de Nazaré, e a partir de Jesus Messias encarnado somos chamadas/os a viver o amor ao próximo, condição para Deus continuar se encarnando em nosso meio. No entanto, ontem como hoje, houve desentendimentos e conflitos nas primeiras comunidades cristãs por causa do grupo chamado de “falsos profetas” ou “anticristos”, que negou Jesus feito carne e sua existência humana. Esse grupo espiritualizava o seguimento de Jesus e sua relação com Deus, o que ocasionava o desprezo ao mandamento do amor ao próximo e a indiferença diante das injustiças e violências do mundo em que viviam.

1. Os falsos profetas

A segunda carta de Pedro (2Pd), uma das cartas católicas escritas no início do século II na Ásia Menor, descreve a presença de falsos profetas na comunidade:

Houve também falsos profetas no meio do povo. Assim também entre vocês vão aparecer falsos mestres, introduzindo seitas maléficas. Renegando o Senhor que os resgatou, trarão rápida destruição para si mesmos. Muitos vão seguir suas doutrinas dissolutas, e por causa deles o caminho da verdade será difamado. Por cobiça de dinheiro, com discursos enganadores, vão procurar que vocês se tornem objeto de negócios. Mas o julgamento deles já começou faz tempo, e a sua destruição não demorará (2Pd 2,1-3).

Renegar o Senhor, difamar o caminho da verdade, cobiçar dinheiro… Os falsos profetas não seguem o ensinamento de Jesus Cristo e até renegam sua autoridade como Salvador, criando divisões e conflitos nas comunidades. Eis aqui seus principais ensinamentos e práticas, conforme a segunda carta de Pedro:

a) Renegar o Senhor: “Portanto, se pelo conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo alguém se afastou das imundícies do mundo, e novamente se deixa seduzir e se rende a elas, seu último estado torna-se pior que o primeiro” (2Pd 2,20); “Especialmente os que se entregam ao próprio instinto e seus imundos apetites e desprezam a autoridade do Senhor” (2Pd 2,10a). Os falsos mestres, tendo experimentado o poder salvífico de Jesus Cristo, agora voltam às imundícies do mundo e rejeitam o ensinamento e os atos de Jesus feito carne, transmitidos pelos apóstolos (cf. 2Pd 3,2). Renegam o Salvador Jesus Cristo, sua vida terrestre, morte, ressurreição e a promessa da sua volta gloriosa (parusia).

b) Não haverá a vinda do Senhor: “Antes de tudo, vocês precisam saber que no fim dos tempos vão aparecer cínicos e zombadores, entregues a seus próprios desejos. Eles dirão: ‘O que aconteceu com a vinda dele que estava prometida? Desde que morreram nossos pais, tudo continua o mesmo desde o início do mundo’” (2Pd 3,3-4). Diante da demora da vinda do Senhor, os falsos mestres ridicularizam e rejeitam o anúncio profético do “poder e da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Pd 1,16). Para eles, não haverá segunda vinda nem julgamento final do Senhor.

c) Libertinagem, corrupção e imundícies: “Sua ideia de prazer é a orgia em pleno dia. Sujos e nojentos, deliciam-se nos próprios enganos quando fazem banquete com vocês. Têm os olhos cheios de adultérios e nunca se cansam de pecar. Seduzem quem está inseguro, e a mente deles está treinada para a ambição” (2Pd 2,13-14). Como, a seu ver, não haverá parusia nem julgamento, é permitido realizar todos os desejos.

Os grupos chamados de “falsos profetas” e de “anticristos” provavelmente eram do cristianismo gnóstico, que se desenvolveu mais fortemente no século II. Para alguns deles, a salvação estava no conhecimento, ou gnosis, em grego. Bastava ter um esclarecimento espiritual para estar em comunhão com Deus. O gnosticismo cristão substituía a prática concreta do amor – a essência do seguimento de Jesus – por rituais e conhecimentos espirituais desligados da vida prática. Por terem tais conhecimentos e participarem dos rituais do grupo, achavam que estavam em união com Deus e assim não havia pecado nem o julgamento de Deus para eles. Por isso não buscavam viver de modo coerente com o evangelho na vida diária, entregando-se à libertinagem e despreocupando-se com a justiça e com a defesa da dignidade humana.

Na segunda carta de Pedro, o autor reage energicamente ao movimento gnóstico cristão, declarando que o conhecimen-
to não é simplesmente a percepção intelectual e participação em rituais esotéricos:
antes, é uma experiência concreta de Jesus, Deus encarnado, que resulta no seguimento do evangelho e na transformação moral: “Com seu poder divino, Deus nos deu tudo o que leva à vida e à piedade, por meio do conhecimento de Jesus, o qual nos chamou por sua própria glória e mérito” (2Pd 1,3).

A presença de falsos profetas ou mestres gnósticos não é um problema totalmente novo na vida das comunidades cristãs. A carta de Judas, outra carta católica, escrita um pouco antes da segunda carta de Pedro, já apresenta o conflito e a divisão por causa do pensamento e da prática dos falsos profetas:

a) Falsos mestres: “Nos últimos tempos aparecerão homens cínicos, que seguirão suas paixões ímpias. São eles que provocam divisões, são psíquicos e não possuem o Espírito” (Jd 18-19).

b) Renegar o Senhor Jesus Cristo: “Porque se infiltraram entre vocês alguns indivíduos há tempo marcados para esta sentença: homens sem piedade, que transformam a graça de nosso Deus em pretexto para a indecência e renegam o único mestre e Senhor Jesus Cristo” (Jd 4).

c) Conhecimento irracional: “Esses indivíduos, ao contrário, blasfemam tudo o que não conhecem, e as coisas que conhecem fisicamente, como animais irracionais, os levam à perdição” (Jd 10).

d) Libertinagem: “São uns murmuradores, revoltados contra o destino, que se deixam levar pelas próprias paixões. Sua boca profere palavras arrogantes e, se louvam as pessoas, é por interesse” (Jd 16).

e) Contaminar a refeição fraterna: “São eles que contaminam as refeições fraternas de vocês, regalando-se com irreverência e apascentando a si mesmos” (Jd 12a).

No fim do século I ou início do século II, a segunda carta de Pedro e a carta de Judas mostram urgência em seus propósitos: advertir as comunidades cristãs contra os falsos profetas ou mestres, que podem ser os precursores do movimento gnóstico. Tais cartas repreendem e rejeitam os pensamentos e as práticas deles, que atuam nas comunidades buscando destruir a fé alimentada pela prática do evangelho de Jesus Cristo, transmitido pelos apóstolos (cf. Jd 3).

Como as duas cartas católicas de Jd e 2Pd, a primeira carta de João, uma carta católica do fim do século I ou começo do século II, enfrenta o problema e assume o objetivo de advertir as comunidades contra os falsos profetas ou anticristos, que brotam do seio das comunidades:

a) Surgiram do seio da comunidade: “Eles saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco. Mas eles nos deixaram, para que ficasse claro que nem todos eram dos nossos” (1Jo 2,19).

b) Mundo e libertinagem: “Não amem o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo – os maus desejos vindos da carne e dos olhos, a arrogância provocada pelo dinheiro – são coisas que não vêm do Pai, mas do mundo” (1Jo 2,15-16).

c) Renegar Jesus como o Messias: “Quem é o mentiroso, senão quem nega que Jesus é o Messias? Esse tal é o Anticristo, aquele que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho também não tem o Pai. Quem reconhece o Filho também tem o Pai” (1Jo 2,22-23).

d) Conhecer a Deus: “É assim que sabemos se conhecemos a Deus: se guardamos seus mandamentos. Quem diz que conhece a Deus, mas não trata de guardar os mandamentos dele, é mentiroso; nesse não está a verdade” (1Jo 2,3-4).

Alguns membros se afastam da comunidade porque pretendem viver a vida que vem do mundo do Maligno (cf. 1Jo 2,14-15): são dominados pelos desejos de riqueza e de prazer, por isso rejeitam Jesus como Cristo Messias e não praticam os mandamentos do amor ao próximo. No entanto, dizem ter o conhecimento (gnosis) de Deus e, por isso, creem estar em comunhão com ele e isentos de pecado e julgamento. Com seus pensamentos e prática, eles provocam conflito e divisão na comunidade. A terceira carta de João, por exemplo, lembra a presença do grupo, que não assume a prática da hospedagem, deixando de acolher os irmãos na comunidade.

Diante do conflito desordenado com os inimigos ou rivais, o autor da primeira carta de João reage energicamente, condenando-os e identificando-os como “anticristos” que têm aparecido na comunidade (cf. 1Jo 2,18). Alerta a comunidade para que fique atenta e saiba discernir quem são os anticristos ou os falsos profetas. Em 1Jo 4,1-6, o autor aprofunda e resume o critério de discernimento.

2. Preservar-se dos falsos profetas (1Jo 4,1-6)

Sempre houve aqueles que tentavam seduzir o povo e desviá-lo do caminho do Deus da vida, sejam eles profetas da corte de Judá (cf. Mq 3,9-12), falsos profetas ou ainda mestres no meio das comunidades cristãs (cf. Mt 7,15-17). Homens e mulheres do Deus da vida não deixam de discernir e combater os pensamentos e as práticas dos falsos profetas e advertir a comunidade para que não se envolva com tais pessoas. Esse também foi o trabalho do autor e seu grupo da comunidade cristã da primeira carta de João diante de seus adversários, chamados de anticristos ou falsos profetas.

Um dos pontos mais importantes de discernimento é saber: quem vem de Deus e quem vem do mundo do Maligno? Via de regra, os falsos profetas se consideram mais religiosos e mais perto de Deus. Alegam proclamar sob a inspiração do Espírito de Deus todo-poderoso. Na verdade, contudo, há vários espíritos, como alerta o autor de 1Jo: “Amados, não acreditem em todos os que dizem ter o Espírito. Ao contrário, examinem os espíritos, para ver se vêm de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora” (1Jo 4,1).

Na comunidade de 1Jo, são muitos os anticristos que têm aparecido no meio dos seguidores de Jesus, alegando falar com o Espírito de Deus (cf. 1Jo 2,18). O autor, porém, exalta o fato de que os membros da comunidade possuem “a unção que vem do Santo e têm a sabedoria” para discernir entre o que vem de Deus e o que vem do mundo (cf. 1Jo 2,20). Ou seja, com a unção do Espírito Santo (batismo – crisma), os membros cristãos conhecem e experimentam a presença de Deus, sua Palavra, verdade e vida, em Jesus Cristo (cf. 1Jo 2,27).

Segundo a comunidade joanina, a ação do Espírito (paráclito, advogado, Espírito da verdade, Espírito Santo) é recordar, ensinar e completar o ensinamento de Jesus Cristo: “O Advogado, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, ele ensinará a vocês todas as coisas e lembrará a vocês tudo o que eu lhes tenho dito” (Jo 14,26).

Não se trata, contudo, de qualquer Jesus Cristo. A fé alimentada e transmitida pelos evangelhos professa Jesus Cristo como Deus encarnado no meio da humanidade: “A Palavra (Verbo) se fez carne e armou sua tenda entre nós. E nós contemplamos sua glória, glória que ela tem como Filho único do Pai, cheio de graça e verdade” (Jo 1,14).

Jesus Cristo é verdadeiro ser humano (carne), manifestado, visto e tocado: “O que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado” (1Jo 1,1); não um Jesus Cristo de simples espírito, “conhecido” e pregado pelos anticristos gnósticos, mas Jesus, o Messias encarnado, que viveu, caminhou e trabalhou com seu povo sofrido para promover a justiça, a liberdade e a vida. É Jesus Cristo com sua prática libertadora, prisão, tortura, paixão, morte e ressurreição.

Portanto, o reconhecimento de Jesus Cristo como o Filho de Deus encarnado é ponto crucial na distinção de quem tem o Espírito de Deus: “É assim que vocês saberão se alguém tem o Espírito de Deus: quem reconhece que Jesus Cristo veio na carne, esse vem da parte de Deus” (1Jo 4,2). Jesus é o Cristo Salvador, encarnação de Deus: sua total humanidade como o Messias e sua total divindade como o Filho de Deus (cf. Fl 2,6-11).

Não é, porém, suficiente discernir e reconhecer Jesus Cristo encarnado; é necessário praticar sua Palavra para estar em comunhão com o Espírito de Deus: “Que acreditemos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que ele nos deu. Quem guarda os mandamentos dele permanece em Deus, e Deus nele. Nisso percebemos que Deus permanece em nós: pelo Espírito que ele nos deu” (1Jo 3,23-24). Não existe comunhão com Deus sem amor!

Os anticristos são os que não agem assim; são os que dizem ter o Espírito de Deus, mas não amam seus irmãos porque negam que Jesus Cristo tenha vindo na carne para praticar a justiça e o amor e promover a vida. São falsos profetas que não falam sob a inspiração divina, mas sob o espírito do Anticristo: “Todo aquele que não reconhece a Jesus não vem de Deus. Esse é o espírito do Anticristo. Vocês têm ouvido dizer que o Anticristo está para vir; no entanto, ele já está no mundo” (1Jo 4,3); “Eles são do mundo e por isso falam a linguagem do mundo, e o mundo os ouve” (1Jo 4,5).

Essas duas frases resumem quem são os falsos profetas ou os anticristos. Eles foram da comunidade cristã, ungidos pelo Espírito Santo, e possuíam a sabedoria de discernir e ensinar quem é Jesus Cristo (cf. 1Jo 2,18-22). Entretanto se afastaram da comunidade, porque pretendiam viver à maneira do mundo possuído pelo Maligno: “Tudo o que há no mundo – os maus desejos vindos da carne e dos olhos, a arrogância provocada pelo dinheiro” (1Jo 2,16a). É o modo de viver da sociedade greco-romana: a busca ilimitada de bens, poder, prazer e honra, com a exploração dos pobres e escravos.

Não obstante, os falsos profetas continuam a dizer que são cristãos e que falam sob o Espírito de Deus, seduzindo os fiéis e provocando desentendimentos e conflitos na comunidade. Agora, como eles se justificam, dizendo ser cristãos? Nesse ponto está a mudança do ensinamento: a) não reconhecem Jesus Cristo como o Messias encarnado, ou seja, separam sua realidade humana da sua função messiânica; b) negam a prática libertadora de Jesus, sua prisão, morte e ressurreição; c) consideram Jesus Cristo como uma imagem ou aparência de Deus, porque a divindade jamais assumiria a carne humana – uma vez que a matéria seria essencialmente má, segundo a filosofia grega; d) pregam o conhecimento racional e espiritual de Deus como o único caminho para estar em comunhão com ele e com Jesus Cristo “espiritual”.

Com esse ensinamento ou doutrina, os falsos profetas pensam e afirmam estar em perfeita comunhão com Deus, ainda que sem comunhão com os irmãos – o amor ao próximo. Separam a fé e o ensinamento cristão da prática do evangelho de Jesus Cristo, abrindo e justificando o espaço para sua atuação no mundo: eles são do mundo.

No entanto, foi contra esse “mundo” do Maligno que o próprio Jesus lutou, sofrendo, morrendo, sendo ressuscitado e vencendo: “Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33b). O Espírito de Jesus vence o espírito do Anticristo! O Espírito de Deus está com quem segue Jesus Cristo, o Messias encarnado: “Filhinhos, vocês são de Deus e estão vencendo os falsos profetas, pois aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo” (1Jo 4,4).

Enfim, o autor não se cansa de alertar a comunidade de Deus contra os falsos profetas e seu “espírito de erro”: “Mas nós somos de Deus. Quem conhece a Deus nos ouve; quem não é de Deus não nos ouve. É assim que podemos separar o espírito da verdade do espírito do erro” (1Jo 4,6).

3. A encarnação do Verbo: o critério da fé, da ética e da missão profética

A primeira carta de João apresenta a encarnação do Verbo, o Filho de Deus, como critério fundamental para discernir os anticristos e os falsos profetas:

  • “Quem é o mentiroso, senão quem nega que Jesus é o Messias? Esse tal é o Anticristo, aquele que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho também não tem o Pai. Quem reconhece o Filho também tem o Pai” (1Jo 2,22-23).
  • “É assim que vocês saberão se alguém tem o Espírito de Deus: quem reconhece que Jesus Cristo veio na carne, esse vem da parte de Deus. E todo aquele que não reconhece a Jesus não vem de Deus. Esse é o espírito do Anticristo. Vocês têm ouvido dizer que o Anticristo está para vir; no entanto, ele já está no mundo” (1Jo 4,2-3).

No interior da comunidade, surge um grupo de dissidentes, chamados de anticristos e falsos profetas (cf. 1Jo 2,18-19; 4,1), que nega o Jesus da história como o Cristo, o Filho de Deus. Eles tentam dissociar Jesus de Nazaré do Cristo da fé e separar a fé cristã da vida prática: “Quem diz que conhece a Deus, mas não trata de guardar os mandamentos dele, é mentiroso; nesse não está a verdade” (1Jo 2,4); “Quem diz que está na luz, mas odeia seu irmão, está na escuridão até agora” (1Jo 2,9). Os dissidentes provocam desentendimentos, conflitos e crise, seduzindo os fiéis para o mundo do Maligno (cf. 1Jo 2,12-17).

No confronto direto com esse problema gravíssimo, a primeira carta nasce para dar uma resposta adequada e assim retomar, orientar e fortalecer a fé cristã e a exigência ética e pastoral:

a) Fé em Jesus, o Messias encarnado: “Quem é que pode vencer o mundo, a não ser quem acredita que Jesus é o Filho de Deus? Este é aquele que veio através da água e do sangue: Jesus Cristo, que não veio só através da água, mas da água e do sangue. E o Espírito é quem dá testemunho, pois o Espírito é a verdade. Porque são três os que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três estão de acordo entre si” (1Jo 5,5-8). A afirmação fundamental de 1Jo é a fé no Jesus da história, o Filho de Deus que veio na carne e assumiu a condição humana: a encarnação do Verbo. Ao contrário, os dissidentes dissociam o Cristo glorioso, manifestado no batismo (água: cf. Jo 1,29-34), do homem Jesus, morto na cruz (sangue: cf. Jo 19,31-37) por causa da sua prática do amor ao próximo, até o fim.

b) Fé traduzida no amor ao próximo: “O seu mandamento é este: que acreditemos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que ele nos deu. Quem guarda os mandamentos dele permanece em Deus, e Deus nele. Nisso percebemos que Deus permanece em nós: pelo Espírito que ele nos deu” (1Jo 3,23-24). O amor aos irmãos, no esforço para formar fraternidade, é fruto da fé cristã em Deus, que assumiu a trajetória humana e habitou no meio de seus “filhinhos”. E o Espírito é aquele que recorda e completa a trajetória humana e os ensinamentos do Messias encarnado, conduzindo os cristãos nos caminhos da verdade e da vida (cf. Jo 15,26).

c) Fé vivida e testemunhada: “Se aceitamos o testemunho humano, sabemos que o testemunho de Deus é maior. E este é o testemunho de Deus: ele deu testemunho a respeito do seu Filho. Quem acredita no Filho de Deus tem o testemunho dentro de si mesmo. Quem não acredita em Deus faz dele um mentiroso, porque não acredita no testemunho que ele deu em relação a seu Filho” (1Jo 5,9-10). Jesus Cristo encarnado é a grande testemunha do amor de Deus: “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou seu Filho único ao mundo, para podermos viver por meio dele” (1Jo 4,8-9). Quem acredita em Jesus, o Messias encarnado, “tem o testemunho dentro de si mesmo” (cf. Jo 15,27): testemunha o amor de Deus e seu Filho na ação pastoral e missionária em vista da transformação pessoal e de toda a sociedade rumo ao Reino da fraternidade e da solidariedade.

Na recordação da fé, do amor e da missão, o autor da primeira carta de João ressalta as três virtudes fundamentais da vida cristã: a fé no Jesus da história, que há que traduzir-se em obras, o amor, que implica a partilha concreta com os irmãos, e a missão profética, que é a força nascida do amor e se projeta para a formação do Reino da fraternidade.

Historicamente, o movimento cristão enfrenta, em seu interior, vários grupos gnósticos, que ressaltam a salvação somente por meio da gnosis (conhecimento), negando o Jesus da história, o Messias encarnado. Na década de 50 d.C., Paulo escreve e reescreve, em várias passagens, as três virtudes da vida cristã nos desentendimentos e conflitos com seus opositores, que espiritualizavam o seguimento de Jesus:

  • “Lembramos a obra da fé, o esforço do amor e a constância da esperança que vocês têm no Senhor nosso Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai” (1Ts 1,3);
  • “Agora permanecem a fé, a esperança e o amor, essas três coisas. A maior delas é o amor” (1Cor 13,13);
  • “Que o amor seja sem fingimento. Detestem o mal e apeguem-se ao bem. Amem-se uns aos outros com carinho de irmãos, cada um considerando os outros como mais dignos de estima. Sirvam ao Senhor, incansáveis no zelo, fervorosos no espírito, alegres na esperança, perseverantes na tribulação, constantes na oração, solidários com as necessidades dos santos, praticando a hospitalidade” (Rm 12,9-13).

Pregando Jesus crucificado, o Messias encarnado, com o poder e a graça de Deus (cf. 1Cor 1,17-31), Paulo fortalece a perseverança da comunidade na fé ativa, no amor fraterno e na teimosa esperança na missão profética, como motor na caminhada, rumo à realização do projeto de Jesus crucificado e ressuscitado.

Em torno do ano 100 d.C., a comunidade de João ressalta a fé na encarnação do Filho de Deus, com toda a força da palavra: “A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14). Num dos momentos importantes da comunidade, o mistério da encarnação é proclamado e vivenciado:

  • “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha carne, para que o mundo tenha a vida. Eu lhes garanto: se vocês não comem a carne do Filho do homem e não bebem o seu sangue, não têm a vida em vocês” (Jo 6,51.53).

Na refeição comunitária, a comunidade joanina reitera a encarnação de Jesus Cristo como o critério da fé, da ética e da missão profética: carne (encarnação e vida/prática) e sangue (cruz/morte) equivalem à totalidade da vida do Jesus da história, o Messias encarnado. Ao comer a carne (corpo, em 1Cor 11,24) e beber o sangue de Jesus Cristo, os cristãos renovam seu compromisso com a vida em plenitude para o mundo todo: a obra da fé, o esforço do amor e a constância da missão profética.

Hoje, como ontem, há uma variedade de movimentos religiosos, dentro e fora da comunidade cristã, que ressalta a salvação somente por meio da gnosis (conhecimento), do exercício espiritual, ou da simples participação nos rituais e sacramentos, sem a prática coerente do amor ao próximo na vida diária e nas opções políticas mais amplas. Há também, contudo, o forte movimento cristão que caminha com a fé ativa em Jesus Cristo feito carne, com o amor fraterno, com a missão profética sem fronteiras e com a esperança teimosa para assegurar a construção do Reino da vida. Nesse movimento, algumas comunidades católicas cantam e expressam a fé ativa, o amor fraterno e a esperança teimosa de maneira singular:

  • “Tomai, comei, tomai, bebei meu corpo e sangue que vos dou. O pão da vida sou eu mesmo em refeição. Pai de bondade, Deus de amor e do universo, sustentai os que se doam por um mundo irmão”;
  • “Muito tempo não dura a verdade, nestas margens estreitas demais. Deus criou o infinito pra vida ser sempre mais. É Jesus este pão de igualdade, viemos pra comungar com a vida sofrida do povo que quer ter voz, ter vez, lugar. Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar. Com a fé e a união, nossos passos um dia vão chegar”.

A fé ativa em Jesus de Nazaré como a encarnação do Verbo de Deus é o caminho no qual os cristãos experimentam o mais profundo que se pode conhecer de Deus e experimentar dele. Porque aí está a vida: “Deus é amor” (1Jo 4,8)!

Uma palavra final

Reconhecer que Jesus Cristo veio na carne é assumir o projeto de Deus, que nos convida a continuar a mesma missão profética de Jesus: comprometer-se com a justiça e a solidariedade, em contraposição às realidades que negam a vida do ser humano. Um dos homens do nosso tempo que denunciaram a injustiça e carregaram a cruz junto com o povo sofrido foi dom Oscar Romero, que nos deixou sua mensagem profética:

Há um critério para saber se Deus está perto de nós ou se está longe: todo aquele que se preocupa com o faminto, com o maltrapilho e o pobre, o desaparecido, o torturado, o prisioneiro, com todos esses corpos que sofrem, está perto de Deus. “Chamarás o Senhor e ele te escutará.” A religião não consiste em rezar muito. A religião consiste nessa garantia de ter meu Deus perto de mim porque faço o bem aos meus irmãos. A garantia de minha oração não está em dizer muitas palavras; a garantia de minha prece é muito fácil de conhecer: como me comporto com o pobre? Porque ali está Deus (5/2/1978).

É uma profecia que alerta, que denuncia a realidade injusta e, ao mesmo tempo, orienta nossa missão cristã. De modo especial, o “corpo” do empobrecido e injustiçado é o “critério” para seguir o Jesus da história, o Messias encarnado, e seu mandamento do amor ao próximo: “Deus enviou seu Filho único ao mundo, para podermos viver por meio dele. É nisto que está o amor”
(1Jo 4,9b-10a).

Shigeyuki Nakanose

Shigeyuki Nakanose, svd, é assessor do Centro Bíblico Verbo e professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores – Itesp. Juntamente com o Centro Bíblico Verbo, tem publicado todos os anos pela Paulus um subsídio para reflexão e círculos bíblicos para o mês da Bíblia. O do ano de 2019 é Jesus Cristo veio na carne é de Deus (1Jo 4,2): entendendo a primeira carta de João. E-mail: shigenakanose@ig.com.br