Por Robert Henrique Sousa Dantas[1]

Alteridade é um substantivo feminino que expressa a qualidade ou estado do que é diferente. Ou seja, é a preocupação com o Outro, colocada no fundamento do agir humano e levada à prática individual com relação à sociedade. Com isso, o egoísmo perde espaço trazendo somente ações responsáveis e justas do Eu para com o Outro. Daí o surgimento de uma Ética.

Quando se trata da pessoa humana, não é novidade dizer que somos seres plurais e sociais. Em vista disso, possuímos diferentes formas de agir, de pensar e de nos relacionarmo-nos uns com os outros. O homem na sua vertente social tem uma relação de interação e dependência com o outro, sendo este um dos princípios fundamentais da alteridade. Por esse motivo, o “eu” na sua forma individual só pode existir através de um contato com o “outro”.

O encontro de Jesus com a mulher sírio-fenícia (Mt 15,21-28), no texto, parece ser uma realidade de conflito nas comunidades daquele tempo, provocada pela diferença para com a estrangeira e as mulheres. O relato fala do encontro de Jesus com uma mulher estrangeira. Devemos, pois, compreender que naquela época, as pessoas estrangeiras eram algo detestável no pensamento dominante em Israel. Jesus rompe fronteiras e se aproxima do território de Tiro e se encontra em terras estranhas. O seu primeiro encontro é com uma cananeia, uma estrangeira.

Jesus silencia, não diz uma palavra sequer à mulher, apesar dos seus gritos de aflição frente aquela situação. Diante de seu silêncio, os discípulos propõem uma saída ainda mais drástica, sugerindo a expulsão dela. Por fim, as palavras de Jesus representam o mesmo discurso que seguramente brotava da boca do setor judeu daquela comunidade: “Não fui enviado a não ser para as ovelhas perdidas de Israel” (v. 24). “Não é conveniente tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorros.” (v.26). Para muitos judeus nacionalistas, pessoas estrangeiras não eram outra coisa senão “cães” ou “porcos” (cf. Mt 7,6), provocadoras de grandes calamidades para os filhos de Israel.

A resposta da mulher siro-fenícia chama muito a atenção, pois, neste contexto, ela desperta Jesus para a compreensão de alteridade de forma mais ampla. Ela poderia ter respondido de diversas formas ou até mesmo ficar calada como sinal de reprovação diante de seu sofrimento. Contudo, ela utiliza os mesmos termos de Jesus para fazê-lo repensar a sua missão: “É verdade, Senhor, mas também os cachorros comem das migalhas que caem da mesa de seus donos!” (v. 27). Pela boca da sírio-fenícia, falam as mulheres e os marginalizados naquelas comunidades.

A mudança de Jesus, ao passar a escutar os gritos de aflição da mulher estrangeira, representa a nova atitude que as comunidades são chamadas a assumir. Quando Jesus se deixa interpelar pela excluída sírio-fenícia e se abre para o diálogo com ela, sensibiliza-se com sua realidade e reconhece que o “pão” é direito de todas as filhas e filhos para além de Israel.

Quando refletimos a alteridade, vemos claramente que uma cultura não tem como objetivo a extinção da outra. Isto porque a alteridade implica que um indivíduo seja capaz de se colocar no lugar do outro, em uma relação baseada no diálogo e valorização das diferenças existentes. Com isso, o agir de Jesus é um agir de escuta, de humildade, pois só consegue ouvir aquele que escuta o segundo argumento, isso é alteridade, na qual devemos tomar como exemplo.

Com a capacidade de ouvir, Jesus sai de sua conduta e se coloca no lugar daquela mulher. Com a alteridade é possível exercer a cidadania e estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes, na medida em que se identifica, entende e aprende a aprender com o contrário. Se até Jesus parou para ouvir o diferente (a mulher sírio-fenícia), quem somos nós para não ouvirmos aqueles que pensam diferentes de nós, os marginalizados? Portanto, a alteridade é a capacidade de conviver com o diferente, de se proporcionar um olhar interior a partir das diferenças. É justamente aí, que podemos ver o “eu” de Jesus na sua forma individual passando a existir através de um contato com o “outro”, ou seja, com a mulher estrangeira. Com isso, a alteridade significa que eu conheço o Outro em mim mesmo, como sujeito aos mesmos direitos que eu, no caso, sendo todas e todos filhos de Deus.

[1] Estudante de filosofia no Instituto Santo Tomás de Aquino em Belo Horizonte. E-mail: robertprados777@gmail.com