O Senhor foi misericordioso para conosco

A Igreja no Brasil celebra, no dia 27 de maio a Solenidade da Santíssima Trindade. Sua origem remonta ao século IX. Embora possamos considerá-la uma celebração que “destoa” da lógica do Ano Litúrgico, a Igreja viu nesta ocasião a oportunidade de afirmar sua compreensão a respeito da sua fé em Deus que é Pai e Filho e Espírito Santo. Cabe-nos torná-la, de fato, um “momentum” da História da Salvação como deve ser toda celebração do Mistério Pascal de Jesus. A necessidade “doutrinal” não pode se impor de modo a encobrir a dimensão experiencial da Liturgia que se destina a formar em nós a vida de Cristo Jesus. Partiremos, então, desta celebração para esboçar alguns aspectos da espiritualidade que nasce da celebração do Mistério Pascal.

Dizer da Liturgia um “momentum”  da História da Salvação significa assumir as celebrações como um mover-se dos parceiros da aliança rumo ao abraço. O Pai move-se em direção às suas criaturas – em especial os seres humanos, tornados filhos no Filho. A comunidade dos fiéis – significando a humanidade inteira unida à criação – dirige-se mediante o Filho para o colo do Pai. O abraço que os envolve é o próprio Espírito que, descendo, nos permite subir ao Pai, ao nos recordar a Palavra do Filho: “Pai, da graça fonte viva, Luz da glória de Deus Pai, Santo Espírito da vida, que no Amor os enlaçais.”

Essa leitura da Solenidade da Santíssima Trindade nos permite vislumbrar a dinâmica da vida cristã e, experimentando-a pelos ritos, assumi-la existencialmente. É sempre oportuno recordar que, no Rito Romano, as celebrações são acontecimento da salvação vivido em sua relação com o Pai, a quem se dirige a oração, pelo Filho, como pontífice entre Ele e a comunidade dos fiéis, na força e unidade do Espírito Santo. Podemos dizer que somos tragados para o interior da vida divina quando celebramos. Isso não se dá apenas na solenidade que “tematiza” a realidade de Deus como Uno e Trino, mas “toda” vez que a comunidade se reúne para fazer memória dos feitos do Pai em Jesus.

É muito conhecida a analogia (comparação) de São João Damasceno sobre as relações que se dão no interior da Santíssima Trindade, ou seja, entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Este padre grego dizia que  o Pai, o Filho e o Espírito Santo se relacionam entre si como o fazem as crianças ao brincar de roda: enquanto uma permanece no centro (como foco) imóvel, as outras movimentam-se em torno dela até que a do meio toma um lugar na roda e alguém da roda ocupa o centro da ciranda. Na Grécia esta brincadeira se chamava “pericorese”. Esta palavra alcançou significados diversos aplicados à teologia. O mais importante aqui é perceber que pericorese é uma dança e a compreensão das pessoas divinas (Pai, Filho e Espírito Santo); antes este termo era utilizado para falar que a humanidade e divindade de Jesus estão interpenetradas e assim pensar a comunhão como comunicação, doação de si, relação de entrega mútua . Esta palavrinha antiga traduz contemplativamente como a Trindade trabalha: o Pai mostrando-se no Filho, o Filho revelando o Pai e o Espírito sendo doado ao mundo pela ação do Pai no Filho. Cirilo de Jerusalém fala deste acontecimento da seguinte forma: “O Pai é o Pai e não Filho, o Filho é Filho e não Pai. Igualmente, o Pai está no Filho e o Filho no Pai. Ambos doam o Paráclito, ou seja, o Espírito Santo, não o Pai à sua maneira e o Filho à sua; mas antes concede aos santos da parte do Pai, por meio do Filho.”

O conhecimento de Deus, portanto, é construído não apenas em nós, mas a partir de nossa humanidade encarnada,  pela nossa experiência sensorial, corporal: pela Liturgia toda carne enxerga, conhece  o Mistério que se vela e desvela no seio do mundo

Essa descrição da vida divina que se derrama sobre a humanidade é muito profunda, embora possa ser narrada a partir de uma dança ou jogo infantil. Na Liturgia é assim: a complexidade de Deus fica ao alcance das mãos – no caso, mãos que se entrelaçam no embalo de uma comunhão. A Arte da Liturgia não se estabelece pela frieza das definições ou dos conceitos mas pela experiência, isto é, a possibilidade real de tomar parte no Mistério mediante ritos e preces. Nisto consiste a misericórdia de Deus, em revelar-se oferecendo-se a si mesmo. Por isso a Solenidade da Santíssima Trindade começa tendo uma doxologia menor como Antífona, articulada com uma profissão de fé: Deus foi misericordioso para conosco.

Guardadas as proporpções, a Liturgia, como a brincadeira de roda,  nos dá o saboroso conhecimento sobre quem é e como é Deus e – talvez aqui seja o mais importante – quem é o ser humano diante dEle. Nessa direção os Salmos que emolduram o Ofício de Leituras da Solenidade da Santíssima Trindade refletem bem a centralidade do ser humano ao cantar os louvores de Deus. O primeiro deles a ser entoado põe a questão: “Quem é, Senhor, o ser humano, para dele tratardes com tanto carinho” . E a resposta vai sendo construída à medida que o Salmista delineia sua percepção sobre Deus revelando-se em sua criação. Para nós, cristãos e cristãs, esta noção torna-se aguda com a noção de encarnação, pois em Jesus Deus se deixa alcançar por nossa humanidade sem qualquer reserva.

Assim como no centro da brincadeira de roda está a cada vez uma pessoa, igualmente no centro de interesse da Trindade está o ser humano como beneficiário da revelação trinitária. Quando age o Pai, o faz movendo-se em direção a nós por meio do Filho; quando age o Filho, o faz do nosso lugar e dirigindo-se ao Pai; quando age o Espírito, o faz, por concessão do Pai e do Filho para que nós alcemos vôo em direção à plenitude para a qual fomos criados. E quando falamos nós (pela prece litúrgica) fala em nós o Filho e com Ele o Pai, habitando-nos pelo Espírito que nos enlaça em seu amor. O conhecimento de Deus, portanto, é construído não apenas em nós, mas a partir de nossa humanidade encarnada,  pela nossa experiência sensorial, corporal: pela Liturgia toda carne enxerga, conhece  o Mistério que se vela e desvela no seio do mundo. Na liturgia é o corpo que conhece, pois a mente (inteligência, psique) só pode ter acesso ao Mistério de Cristo mediante sua encarnação. Por essa razão os ritos se tornam fundamentais para uma reta elaboração da espiritualidade.

 Pe. Márcio Pimentel

Liturgista