A piedade popular no magistério dos Pontífices de Paulo VI a Francisco. Para Paulo VI “a piedade popular manifesta uma sede de Deus que só os simples e os pobres podem conhecer”
 

Alessandro Gisotti

O Papa caminha sozinho, com passo lento e cansado, em uma rua central de Roma para ir à igreja de São Marcelo al Corso, onde está conservado um Crucifixo de madeira do século XIV, considerado milagroso por gerações de romanos. Ninguém o espera nas ruas ou o cumprimenta no caminho, apenas alguns agentes da Gendarmaria vaticana o acompanham. Uma “procissão” solitária com uma extraordinária força simbólica. Passam alguns dias. O Papa à noite, sob um céu de chumbo, reza em uma Praça de São Pedro vazia: a pequena figura branca se destaca em um espaço que parece surreal. Com ele, somente aquele Crucifixo que tinha venerado alguns dias antes e o ícone mariano Salus Populi Romani, que acompanha a vida do povo da cidade há séculos. Entre as imagens que nos são dadas neste período dramático que estamos vivendo por causa da pandemia, estas duas certamente permanecerão gravados na memória de milhões de pessoas. 

Para Francisco, a devoção popular é um ato de evangelização

Observa-se que os dois momentos, tão intensos espiritualmente, estão ligados à devoções populares que caracterizam o Papa Francisco, o Bispo de Roma, que como primeiro ato público após sua eleição foi prestar homenagem à Mãe, na Basílica de Santa Maria Maior, e retorna sempre por ocasião das suas viagens apostólicas. Uma devoção que vem de longe. Jorge Mario Bergoglio, de fato, desde seus anos de ministério episcopal em Buenos Aires sempre valorizou a devoção dos simples. Para o futuro Papa, caminhar junto com o Povo de Deus em direção aos Santuários – entre eles o da Virgem de Luján – sempre foi uma forma privilegiada de assumir o cheiro das ovelhas que todo bom pastor deve ter. Esta caminhada com o povo para participar das manifestações de piedade popular é, na experiência de Bergoglio, tanto um ato de evangelização quanto um impulso missionário.

A Conferência de Aparecida do Episcopado Latino-americano, da qual nasceu um Documento sobre discipulado e missionariedade, essencial para compreender a ação pastoral de Francisco, foi realizada em um santuário mariano. Os que tiveram o privilégio de estar presente naqueles dias, em maio de 2007, em Aparecida – “um momento de graça”, nas palavras do Papa – recordam que o trabalho dos bispos se realizou num espaço situado sob o santuário brasileiro. Os pastores, portanto, rezavam e se confrontavam acompanhados pelas canções dos fiéis. Essa assembleia, vivida em primeira pessoa pelo então Cardeal Bergoglio, ressoa nas páginas da Evangelii gaudium, dedicada à piedade popular. Suas diversas expressões, escreve o Pontífice, “têm muito a nos ensinar e, para os que podem lê-las, são um lugar teológico ao qual devemos prestar atenção”. A fé precisa de símbolos e afetos, precisa estar entrelaçada com a vida vivida, não pode ser limitada a um exercício intelectual. A piedade popular, chegou a dizer Francisco com uma imagem eficaz, “é o sistema imunológico da Igreja”.

Paulo VI e a redescoberta da piedade popular

Também sobre o tema da devoção popular, como sobre outras questões fundamentais, a Evangelii gaudium recorda a Exortação Apostólica de São Paulo VI, Evangelii nuntiandi. Foi precisamente o Papa Paulo VI, que desde o Concílio Vaticano II deu um novo impulso à devoção popular e, sobretudo, “a defendeu” da frieza, e às vezes da desconfiança, com a qual era vista em alguns círculos católicos. Na Exortação Apostólica citada, que se segue ao Sínodo de 1974 dedicado à evangelização, o Papa Montini dedica um número inteiro, 48, à religiosidade do povo, observando que, neste ponto, toca-se em “um aspecto da evangelização que não pode nos deixar indiferentes”. A Evangelii nuntiandi adverte contra certas distorções que desviaram a devoção popular à lógica da superstição, mas observa que as expressões da religiosidade devem ser redescobertas como formas privilegiadas de evangelização. A piedade popular, escreve Paulo VI, manifesta “uma sede de Deus que só os simples e os pobres podem conhecer”.

João Paulo II: devoção mariana no centro do Pontificado

Esta redescoberta da piedade popular foi desenvolvida e colocada em evidência, no centro do Pontificado, por São João Paulo II. Filho da Polônia que, graças também à devoção popular e em particular à Nossa Senhora, resistiu primeiro às ditaduras nazistas e depois comunistas. Karol Wojtyła “traz a Roma” esta dimensão popular do cristianismo que, em seus gestos como em seu Magistério, é essencial. Ela expressa a catolicidade, a universalidade da Igreja e, ao mesmo tempo, a inculturação do Evangelho em uma comunidade nacional específica. A devoção popular também se torna o fio condutor das mais de cem viagens apostólicas ao redor do mundo, nas quais nunca faltaram um momento de oração em um santuário ou um gesto de atenção às raízes espirituais do país visitado. João Paulo II é também responsável pela publicação, em 2002, do Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia pela Congregação para o Culto Divino.

Com o Papa que inscreveu em seu brasão episcopal sua entrega a Maria, definitivamente foi superado o desprezo das elites que consideram a religiosidade popular como uma manifestação de fé superficial e impura. Ao invés, para João Paulo II, é autenticamente popular “uma fé profundamente enraizada em uma determinada cultura, imersa tanto nas fibras do coração quanto nas ideias e, sobretudo, amplamente compartilhada por todo um povo”. Como observou o Cardeal polonês Stanislaw Ryłko, arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior, o pontificado do Papa João Paulo II “contribuiu para libertar a religiosidade popular do rótulo de resíduo em extinção” conotando-a “como um extraordinário recurso espiritual para a Igreja de hoje”.

Bento XVI: a devoção do povo como patrimônio da Igreja

Bento XVI segue com a mesma convicção de seus antecessores, que já em seus longos anos como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé considerava positivamente as expressões de piedade popular. Isto também pode ser visto no Catecismo da Igreja Católica, do qual Joseph Ratzinger foi o principal autor por desejo de João Paulo II. Certamente – como no caso de seu predecessor polonês e seu sucessor argentino – esta sua atitude favorável foi influenciada pela sua experiência de infância na Baviera quando – junto com sua família e em particular seu irmão Georg, recentemente falecido – participava de peregrinações e outros eventos de religiosidade popular. Portanto, não é surpreendente que ao se tornar Papa, tenha destacado em várias ocasiões que “a piedade popular é um grande patrimônio da Igreja” e a demonstrou concretamente fazendo-se peregrino em numerosos santuários marianos na Itália e nos países visitados em suas 24 viagens internacionais.

Este tema voltou com frequência nos ensinamentos de Bento XVI, especialmente no tradicional diálogo com os sacerdotes da diocese de Roma. Para eles, Bento XVI pediu para não falarem mal das práticas devocionais ou considerá-las prejudiciais, ao contrário, para assumi-las e explicá-las adequadamente ao Povo de Deus. Portanto, ao se encontrar com a Pontifícia Comissão para a América Latina em 2011, destacou pontos que mais tarde seriam retomados pelo Papa Francisco. Para ambos, de fato, a piedade popular não pode ser considerada um aspecto secundário da vida cristã, pois na oração simples do povo ela cria “um espaço de encontro com Jesus Cristo e uma forma de expressar a fé da Igreja”.