A primeira lição ensina, à luz da razão apenas (sem a fé), que a morte é a única certeza que se tem sobre uma pessoa quando ela nasce.
 

Irmão Vanderlei de Lima, eremita de Charles de Foucauld

A Igreja dedica o mês de novembro para melhor refletir sobre a morte e o seu depois. Faz isso, de modo muito pedagógico, para ensinar que o medo natural do fim da vida nesta terra há de ser superado pela certeza da eternidade feliz. Afinal, se morremos com Cristo, também com ele viveremos (cf. Rm 6,8; 1 Cor 15).

Todavia, o medo do desconhecido é humano. Nosso Senhor – verdadeiro Deus, mas também verdadeiro homem – sentiu a agonia (do grego, agon: luta entre a vida e a morte) e teve medo (cf. Mc 14,34; Lc 22,42-44), superou-a, no entanto, com plena e confiante entrega à vontade do Pai celeste (cf. Lc 22,42). Após a morte, ressuscitou glorioso e está vivo para sempre, o sepulcro está vazio (cf. Mc 16,1-8; Jo 20,1-2; Lc 24,10-12; At 10,37-42; Hb 13,8…). Disso vêm algumas lições. Aqui vão três.

A primeira lição ensina, à luz da razão apenas (sem a fé), que a morte é a única certeza que se tem sobre uma pessoa quando ela nasce. Sim, ninguém é capaz de dizer, com total segurança, se será engenheira, médica, doméstica etc., mas pode, sem receio algum de errar, afirmar que, um dia, aquele ser humano morrerá. O corpo debilitado pela doença, idade ou por acidente já não consegue manter as suas funções vitais. É o cardeal Raniero Cantalamessa, OFM Cap., quem registra: “Quando nasce um homem – escrevia [Santo Agostinho – nota nossa] – fazem-se tantas hipóteses: talvez será belo, talvez será feio; talvez será rico, talvez será pobre; talvez viverá muito, talvez não… Mas de nenhum se diz: talvez morrerá, talvez não morrerá. Esta é a única coisa absolutamente certa da vida. Quando sabemos que alguém está doente de hidropisia (à época, esta doença era incurável, hoje são outras), dizemos: ‘Coitado, deverá morrer; está condenado, não há remédio’. Mas não deveríamos dizer a mesma coisa sobre alguém que nasce? ‘Coitado, deverá morrer, não há remédio, está condenado!’. Que diferença há se em um tempo mais ou menos longo ou breve? A morte é a doença mortal que se contrai ao nascer (cf. Santo Agostinho, Sermo Guelf. 12,3 (Miscellanea Agostiniana, I, pp. 482ss). Primeira pregação do Advento de 2020”. Se tal é a implacável realidade, que fazer: esconder a cabeça na areia como avestruz ou preparar-se para enfrentar a morte serenamente?

A resposta vem com a segunda lição. Esta assevera que é preciso estar sempre preparado para a morte. Isso, longe de causar uma vida triste e abatida, traz segurança e alegria ao ser humano. Sim, o que causa desconforto ou uma espécie de esquizofrenia desnecessária é a negação da realidade. Ajuda neste ponto, com sua nobre sabedoria, a Madre Sinclética, que, no século IV, em Alexandria (Egito), aos que lhe perguntavam: “Que fazes para manter o bom ânimo?”, ensinava o seguinte: “Espero a morte a cada dia” (Monges e monjas cistercienses. São Paulo: Ixtlan, 2015, p. 23). Como, no entanto, esperar a morte? – Buscando, na alegria, estar de bem com Deus e com o próximo por meio da oração, do acatamento dos mandamentos, da prática dos sacramentos, da caridade, enfim, vivendo em paz com a sua reta consciência bem formada.

Quem faz isso chega, com o auxílio divino, à terceira lição. Esta convida a – sem tirar os pés da realidade – esperar confiante a eternidade feliz como a fé católica ensina. É, portanto, para ajudar a cada irmão(ã) que escrevi o livro “Para ser feliz nesta e na outra vida. Brevíssimo tratado de Escatologia”, lançado, neste mês, pela Cultor de Livros, de São Paulo (SP). Contém ele a síntese segura do que a Igreja ensina sobre a morte e o seu depois. Distingue o que é de fé do que, embora importante, não ultrapassa a opinião de teólogos. Tudo isso bem fundamentado na Bíblia e na Tradição interpretadas pelo Magistério da Igreja e calçado na opinião de renomados teólogos.

Por fim, só resta agradecer ao Vatican News pelo espaço, pois o livro ajudará, com a graça de Deus, a cada pessoa que o ler com a mente e o coração abertos.

 

 

fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-11/a-morte-e-o-seu-depois-medo-ou-esperanca.html