“A criança brinca, para expressar agressão, adquirir experiência, controlar ansiedades, estabelecer contatos sociais como integração da personalidade e por prazer”, Winnicott

Igual aos adultos, as crianças tiveram que se adaptar a um novo mundo após o decreto da pandemia. De repente, surgiu uma nova rotina para elas e algumas ainda tiveram que lidar com o luto pela perda de familiares.

Todas essas mudanças estressantes podem gerar diversos impactos psicológicos nos pequenos, afinal, se as mudanças provocadas pela Covid-19 impactaram na saúde mental dos adultos, por que seria diferente com as nossas crianças?

A principal medida contra o Corona vírus é o isolamento social, no entanto para algumas crianças, o lar não se configura o local mais seguro e o aumento de tempo de permanência em casa, aliado ao estresse parental por conta das novas demandas após pandemia, podem desencadear tensões, conflitos e situações de violência.

Para muitas crianças, a escola é uma importante rede apoio, com a pandemia, no entanto elas se viram afastadas desse local de ensino, socialização e, muitas vezes, símbolo de afeto e cuidado, não podendo mais ter contato direto com professores e colegas. A escola é extremamente importante para o desenvolvimento e aprendizagem, com a privação do ambiente escolar é de se esperar que  essas mudanças possam gerar estresse e ansiedade, agitação e agressividade por parte das crianças.

Durante o isolamento social em decorrência da pandemia, o canal de denúncias de violação aos direitos humanos  recebeu, até maio de 2021, 25,7 mil denúncias de violência física e 25,6 mil de violência psicológica. Crianças e adolescentes correspondem a 59,6% do total de ocorrências. Segundo um estudo realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) o relatório afirma também que 84% dos casos ocorrem dentro da residência da criança, e 75% das denúncias de violência são de estupro.

Em relação ao desenvolvimento emocional, as crianças podem ter prejuízos em função do isolamento social?

O que nós estamos vivendo hoje é uma crise, então sim, pode haver prejuízos no desenvolvimento emocional da criança, não apenas em função do isolamento social, mas também das outras “crises dentro da crise” (perda do trabalho, perda de pessoas próximas). As crianças são muito perceptivas e tendem a se valer das emoções de seus cuidadores como “termômetro” para avaliar o grau de ameaça de determinada situação, e também tendem a espelhar os comportamentos que observam em seus cuidadores.

No início da pandemia foi necessário interromper os atendimentos infantis devido ao fato da utilização de muitos brinquedos compartilhados. Logisticamente se tornou impossível o atendimento infantil devido à impossibilidade de garantir a assepsia necessária de todos os materiais de uso coletivo utilizado pelas crianças, criando assim um ambiente de grande risco de contaminação. Tal medida teve um grande impacto nas crianças, com o avanço da vacinação foi possível retornar os atendimentos infantis. É notório o impacto causado nas crianças devido a privação social, quadros de ansiedade, crises de pânico e agressividade se tornaram constantes durante as sessões. O uso obrigatório de máscaras nas bonecas se tornou uma regra absoluta imposta por eles, tal comportamento só reforça como a pandemia marcou uma geração inteira principalmente os que foram atingidos na primeira infância.

Então, acho válido que os pais se observem e se fortaleçam para poder transmitir para a criança tanto a preocupação necessária diante da pandemia se possível, aproveitar o momento de crise não apenas para impedir o prejuízo emocional, mas também para fomentá-lo, construindo novos recursos psíquicos.

Para conseguir fazer isso com a criança, é preciso que o adulto faça isso consigo mesmo. Ou seja, a melhor forma de cuidar da criança é cuidando primeiramente de si mesmo.

  • Fernanda Carolina P de Oliveira

Psicóloga Clínica/Psicanalista – CRP 04/36754