“Quem quiser entrar no Reino de Deus, Quem quiser entrar no Reino de Deus, Preste atenção nas crianças.” (Pe. Zezinho)

Criança pergunta, criança quer saber. Sua imaginação é muito fértil, viaja. Questionamentos que nos desconcertam. E muitas vezes para colocar ponto final, nós adultos respondemos: “Porque sim”. Toda pergunta nos provoca, nos lança para frente, desestabiliza. Ainda bem, pois quem pergunta quer saber.

Certos assuntos são verdadeiros tabus, seja por questões morais ou porque não temos respostas prontas. Quem já não ouviu a expressão: “Religião, política e futebol não se discute”. Discute-se sim.  Com maturidade, os assuntos citados e outros tantos que mexem com o ser humano devem ser discutidos de maneira clara e transparente. E se for para falar de Deus, fé, espiritualidade, vida após a morte e tudo o que envolve a temática, as crianças são seres portadores de curiosidades e trazem exemplos muito significativos. Aqui não interessa maturidade, a experiência de tempo vivido, vale o desejo de indagar, o querer conhecer, descobrir, desvendar.

Em  meio a tantas mudanças e avanços tecnológicos, as crianças  estão sedentas de sabedoria e carregadas de indagações. Vale a  pena ouvi-las. Disse Jesus, certa vez aos seus discípulos: “Quem não receber um desses pequeninos não vai entender o que é o Reino dos Céus”. Os pequenos nos trazem questões e oportunidades para falarmos de Deus presente na vida e na história.

Como educador, com frequência sou abordado com questões de grande profundidade: Deus tem forma, um corpo? Para onde vamos depois que morremos? Morrer dói? Voltaremos um dia? Ou ainda: E se a nossa vida for só um sonho? Como pai, também  ouço muitas  perguntas  que vão além de nossa capacidade intelectual para resposta mais adequada. Questionamentos que nos fazem pensar, buscar possibilidades, tendo uma certeza: não encontraremos uma única resposta.

Diante de tamanho desejo, apresentado pelos  pequenos, para entender questões existenciais, nós adultos temos que nos colocar numa atitude de escuta. Seja como pai ou como educador, é o momento oportuno para nos sentarmos no “chão”, vir ao encontro para ouvir. Sem receios ou melindres, as crianças terão liberdade e confiança para discorrer sobre os assuntos que estão na sua imaginação.

Após uma aula, uma aluna com dez anos veio me contar como ela imaginava Deus quando ela era menor. Como pensava que Ele vivia no céu, queria viajar em um avião superpotente para ir muito alto e ver Deus. Disse que Ele morava nas nuvens. Partilhei, rapidamente, como eu sentia Deus em minha vida. Sabia que ela tinha medo da morte. Falei que assim como a maioria das crianças, como ela, eu também tinha medo. E ela, de imediato, me deu algumas dicas. Ela procurava respostas e vi que ficou satisfeita por ter me orientado. Ao ouvi-la por um instante, foi mais uma forma de criar um vínculo. Ela, minha pequena aluna também me ensinou algo nessa rápida conversa. Afinal, sempre somos aprendizes na jornada da vida.

Fundamental é que, seja como pais  ou como educadores, possamos criar oportunidades para ouvir, acolher. As respostas? Estas irão surgindo, serão construídas, elaboradas na partilha. Não existe um manual com respostas para tais questões. Existe sim, uma vontade e desejo dos pequenos para compreender um pouco e viver com maior serenidade diante das indagações.

As questões relacionadas à Deus fazem sim parte da vida das crianças. Elas demonstram em diversos momentos, o desejo em conhecer e sobretudo, que acreditam em algo maior, que transcende a nossa realidade. Não é pequena a fé dos pequenos.

Rogério Darabas

Educador e palestrante
Licenciado em Filosofia e Pedagogia.
Professor de Ensino Religioso e Filosofia. Atua na educação há mais de vinte anos. Profere palestras em colégios católicos e Paróquias sobre Formação e Espiritualidade Familiar e Juventude.

Publicado originalmente no Site da Paulus