Pessoas aproveitam a tarde na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, Brasil, em 12 de julho de 2020, durante o primeiro final de semana após flexibilização das medidas e restrições impostas para combater a propagação do novo coronavírus (Mauro Pimentel/ AFP) Carecemos de tomar nossa realidade nas mãos, confrontar nossos problemas e mudar o curso da nossa travessia

Tânia da Silva Mayer*

Nesse momento, certamente alguém já se perguntou pelo sentido de tudo o que estamos vivendo. E muitas respostas convergiram para sentimentos comuns como a tristeza e a solidão. A brevidade da morte nesse tempo nos faz sentir tristes e sós, talvez como nunca nos imaginamos estar. Já não é mais possível dizer que estamos enclausurados em nossas casas, uma vez que as políticas de isolamento social são sabotadas desde os comerciantes, que insistem em abrir seus negócios, até os cidadãos que, podendo ficar em casa, preferem as ruas, os mercados ou outros estabelecimentos que promovem aglomerados de pessoas.

Conforme assistimos diariamente, ignoram a situação social de pandemia que o mundo enfrenta. Um passeio pelas ruas se torna a oportunidade de contemplação da real situação das coisas. Pernas e mais pernas vagueiam por todos os lados como se nada estivesse acontecendo. Abusos são constatados quase que o tempo todo. As leis sanitárias não dizem nada e as pessoas vivem à revelia dos fatos e das estatísticas. Nesses momentos surge novamente a pergunta por tanto sofrimento. É quando a tristeza aumenta. Quando percebemos que as pessoas, que hoje ocupam os espaços públicos sem a mínima proteção e cuidados, parecem as pobres ovelhas que são levadas ao matadouro, sem se darem conta disso (cf. Sl 44,23).

E como as atitudes individuais têm força para impactar o coletivo, vivemos esse tempo como uma travessia entre uma vida possível e o matadouro. Seguimos o curso dos dias sem nos darmos conta da gravidade do que estamos fazendo das nossas vidas. E, por essa razão, abandonamo-nos às mãos da sorte, sem o menor esforço de preservação do nosso bem maior. É possível que essa postura seja uma reação não refletida, mas que é assumida pela sociedade e pelos indivíduos, a fim de não nos confrontarmos com os enigmas do sofrimento e da solidão humanos, que atravessam os tempos sem a exatidão de uma resposta. Por essa razão, caminhamos para o matadouro por medo do confronto com o sofrimento, a solidão e com a tristeza. No fundo, nós somos aqueles músicos que tocavam seus violinos enquanto o Titanic afundava.

O medo de sermos perguntados outra vez pelo nosso sofrimento nos afasta de respostas que possam lançar luzes ao tempo presente. No fundo, sabemos que os seres humanos sofreram, sofrem e sofrerão no futuro, qualquer que seja, mas não damos conta de dizer por que isso acontece. Sem dúvidas, está amplamente relacionado à fragilidade e precariedade da condição da espécie. Mas é uma realidade sempre implacável e de dor para muitas pessoas. Também não damos conta do fato de nos entendermos sozinhos no mundo. É fato que ninguém se humaniza sozinho, justamente por não sermos uma ilha, mas também é fato que nada e ninguém pode ocupar o espaço da nossa existência. Por isso, embora cercados de pessoas, sabemo-nos ser únicos, sós.

Ontem (13) foi o dia mundial do rock, e uma canção brasileira, há alguns anos, insistia que “fugir da dor é fugir da própria cura”. Ao longo do tempo, as salas e consultórios de psicologia revelam que a cura para muitos traumas só se torna uma realidade possível pela tomada de atitude do indivíduo que procura o enfrentamento dos próprios sofrimentos e da solidão. Hoje, carecemos de tomar nossa realidade nas mãos, confrontar nossos problemas e mudar o curso da nossa travessia, a fim de que nossos pés caminhem na direção de outro mundo possível, a ser edificado por novas posturas diante da vida.

Música citada: Titãs – Fugir da dor.


*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.