Por Daniel Reis*

Os supermercados exibem uma infinidade de ovos e coelhos de chocolate. Agências de turismo ofertam múltiplos destinos para viagens durante a Semana Santa, tendo grande adesão por parte daqueles que veem nesta data uma oportunidade de lazer e descanso. Micaretas, shows e baladas são promovidas em todos os cantos. Nas igrejas, a celebração da Paixão e Morte do Senhor, na sexta-feira, fica lotada, enquanto a solene Vigília Pascal do sábado à noite, na qual se celebra a vitória da vida sobre a morte, pela ressurreição de Cristo, fica vazia. Serão estes alguns indicativos de uma deturpação da espiritualidade proposta pela Páscoa de Jesus?

Celebrar verdadeiramente a Páscoa nos ajuda a enxergar e a experimentar o Mistério Pascal (mistério da passagem) em nossa própria vida, ou seja, a vitória sobre as muitas situações de morte que enfrentamos cotidianamente: a páscoa (passagem) do cansaço após a bem-sucedida execução de um serviço no ambiente de trabalho, para o sentimento de dever cumprido, seguido da celebração com os colegas; a páscoa do desgaste durante a dedicação ao estudo, para a vitória do diploma, celebrada com a Missa e a festa de formatura; a páscoa de um desentendimento ou rancor de alguém para a reconciliação e o perdão, celebrada na volta ao convívio fraterno; a páscoa da doença à saúde e a páscoa da morte à vida eterna, que também deve ser celebrada, como o faz a Igreja em seu rito de exéquias (vide artigo de minha autoria publicado neste site: “Ó morte, onde está tua vitória?”).

Quando imbuídos de uma autêntica e feliz espiritualidade pascal, celebramos e devemos celebrar as nossas páscoas na Páscoa de Cristo, fundamento e base de toda a vida cristã. A alegria de nossas vitórias pascais deve superar e recompensar o sacrifício, caso contrário este se torna estéril e vão, como acontece com o próprio sacrifício da Cruz, que só se justifica pela ressurreição (cf. 1Cor 15, 17a). A páscoa sem a passagem de um estado a outro não é páscoa, mas estagnação. A páscoa traz em si este dinamismo que nos liberta das amarras da morte e nos faz passar à vida, abraçando-a.

Todavia, o sacrifício é parada obrigatória no caminho rumo à vitória. Só faz a experiência da ressurreição quem fez a experiência da morte, em suas diversas formas. Aqui se encontra o núcleo pascal do Batismo, pois como ensina Paulo na epístola aos romanos:

“Pelo batismo fomos sepultados com ele na morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim também nós possamos caminhar numa vida nova. Se permanecermos completamente unidos a Cristo com morte semelhante a dele, também permaneceremos com ressurreição semelhante a dele. Sabemos muito bem que o nosso homem velho foi crucificado com Cristo, para que o corpo de pecado fosse destruído e assim não sejamos mais escravos do pecado. De fato, quem está morto, está livre do pecado. Mas, se estamos mortos com Cristo, acreditamos que também viveremos com ele, pois sabemos que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele. Porque morrendo, Cristo morreu de uma vez por todas para o pecado; vivendo, ele vive para Deus. Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo.” (Rm 6, 4-11)

Desta forma, os batizados e batizadas, de modo especial, tendo sido mergulhados na morte e ressurreição de Jesus Cristo pelo Batismo, são chamados a viverem este contínuo dinamismo pascal, não só o experimentando, mas promovendo-o na comunidade de fé, na família, no trabalho, na sociedade e no mundo. Recriados à imagem de Jesus, paradigma perfeito da humanidade, somos n´Ele novas criaturas, passando da condição de irreconhecíveis pelo pecado, à “raça escolhida, sacerdócio real, nação santa e povo adquirido” (1Pd 2,9). Em sua epístola, Pedro continua a evidenciar esta passagem de uma condição à outra: “Vocês que antes não eram povo, agora são povo de Deus; vocês que não tinham alcançado misericórdia, agora alcançaram misericórdia.” (1Pd 2,10). Tudo isso graças à Páscoa de Jesus Cristo!

“Exulte de alegria!”, bradamos no Precônio Pascal da Vígília, no sábado santo. Alegria pura e verdadeira pelo êxito da vida sobre a morte! No entanto, como afirma o Papa Francisco, em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium: “Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa.” (cf. EG, n.6). E de fato trata-se de uma escolha, pois uma vez que fomos libertos da escravidão da morte, sair do “cativeiro” rumo à liberdade oferecida pela Páscoa é uma escolha que devemos fazer.

A exemplo dos discípulos de Jesus, deixemo-nos impregnar pela alegria do encontro com o Ressuscitado (cf. Jo 20,20), permitindo que Ele “faça novas todas as coisas” (Ap 21,5), a fim de que possamos viver autenticamente a vida nova em Cristo e anunciar, “transbordando de alegria pascal” (cf. Prefácio da Páscoa I), que o Senhor vive e reina para sempre!

Daniel Reis é graduando em Teologia e em Direito, pela PUC Minas. É aluno do curso de Especialização em Liturgia, pela Universidade Salesiana de São Paulo. Membro da coordenação e assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte.

Publicado Originalmente no site Dom Total