Em uma cerimônia na Câmara Municipal de Volta Redonda-RJ, realizada na tarde de segunda-feira, 9 de novembro, foi apresentado o relatório final da Comissão Municipal da Verdade Dom Waldyr Calheiros. O padre Ozanan Carrara foi um dos membros da equipe que investigou as violações aos direitos humanos cometidas entre os anos de 1964 e 1989. O religioso é animador da Dimensão Justiça, Paz e Integridade da Criação (Jupic) na Província Brasil Norte dos missionários do Verbo Divino.

O documento de 577 páginas foi elaborado após depoimentos, muita pesquisa e análise de diversos dados. O trabalho iniciou-se em 10 de setembro de 2013 e buscou descrever detalhadamente os crimes ocorridos na ditadura civil-militar (1964-1985) contra operários, sindicalistas, políticos, jovens e membros da Igreja. A comissão também analisou o período denominado “Ditadura Tardia” (1985-1989), um tempo com fortes resquícios da máquina repressora.

Perseguição a verbita

Entre as vítimas, o relatório cita o então verbita Pe. Natanael de Moraes Campos, hoje no clero da Arquidiocese de Belo Horizonte-MG. O religioso foi preso, acusado de acolher jovens que lutavam contra a ditadura. Ele era o diretor espiritual da Juventude Operária Católica (JOC) de Volta Redonda, um dos movimentos considerados insurgentes pelos ditadores. Padre Natanael foi perseguido e encarcerado no 1º Batalhão de Infantaria Blindada, em Barra Mansa, e depois transferido para o presídio de Ilha Grande.

Padre Ozanan conta que Natanael se tornou um dos suspeitos de ter recebido entre os jovens da JOC pessoas que, sem que ele soubesse, vieram de grupos guerrilheiros ou que eram perseguidos pelos militares. “Eles acolheram sem saber exatamente a origem desses jovens”, conta Pe. Ozanan, acrescentando que o JOC tinha a postura de incluir todos que quisessem participar dos trabalhos de evangelização.

O próprio bispo diocesano na época, Dom Waldyr Calheiros (1923-2013), patrono da comissão, teve vários problemas com os repressores, os quais o acusavam de subversão. Ele chegou à Diocese de Barra do Piraí-Volta Redonda em 1966, pouco depois do Concílio Vaticano II e viveu um tempo de tensões tanto na vida social e política quanto na própria Igreja.

Mortes na CSN

Outros fatos pós-ditadura também são relatados. Um dos casos mais conhecidos é o assassinato de três operários durante a greve na Companhia Siderúrgica Nacional, em 9 de novembro de 1988, já no governo de José Sarney. O crime ocorreu após 500 militares do exército invadirem a CSN para reprimir cerca de 3 mil operários que lutavam pelos direitos conquistados na Constituição recém-promulgada.

No último mês de setembro, o Ministério Público Federal instaurou um inquérito para apurar a responsabilidade do Estado. A iniciativa surgiu depois da representação da Comissão da Verdade.

A última parte do relatório propõe 21 recomendações, entre elas iniciativas de promoção dos direitos humanos, abertura de inquéritos e restituições de direitos. Uma das preocupações é a preservação da memória de um dos tempos mais sombrios da História recente do Brasil.

Documentário

Com base no relatório da Comissão da Verdade de Volta Redonda, a Verbo Filmes, produtora administrada pelos missionários do Verbo Divino em São Paulo-SP, produziu uma série de 16 vídeos. Há depoimentos de personalidades, entre elas o Pe. Ozanan Carrara, sobre os principais temas levantados nos trabalhos. O conteúdo pode ser acessado gratuitamente pelo Youtube.

Veja mais

COMISSÃO MUNICIPAL DA VERDADE D. WALDYR CALHEIROS – VOLTA REDONDA – RELATÓRIO FINAL 

Documentário: “Violações dos Direitos Humanos no Sul Fluminense”

PADRE NATANAEL.