É urgente um trabalho pastoral que rompa com uma fé em perspectiva mágica. A fé, na perspectiva cristã, é compreendida como confiança: um lançar-se em Deus (Unsplash/ Joshua Earle)

Felipe Magalhães Francisco* – Publicado originalmente em Opinião e Notícias. 

Vez ou outra fico pensando num provérbio de uma cultura distante, que reza o seguinte: “confie em Deus, mas tranque bem as portas de casa”. A fé, na perspectiva cristã, é compreendida como confiança: um lançar-se em Deus. É salto no escuro. Mas não é cega: enxergamos com o nosso interior. Tematizar essa questão é importante, quando a fé está sempre sob o risco de cair na armadilha da alienação e da magicização.

Há quem acredite piamente que a fé é a solução para tudo. Nesta pandemia, por exemplo, há quem esteja convencido de que está inalcançável pelo vírus, por ser uma pessoa de fé. Não há políticos com cargos eletivos, defendendo dias de jejum e oração, para o fim da pandemia? Esse tempo de calamidade favorece que cristãos e cristãs enxerguem o que estamos vivendo, como algo semelhante a muitos episódios pelos quais passou o povo de Israel, tal como nos narra, largamente, o Primeiro Testamento, mas que não levam em conta o sentido profundo dessas narrativas.

Se nos voltarmos, pois, para uma escuta atenta dos profetas, veremos que, constantemente, eles interpelam a uma fé profunda, que não se confunda com uma expectativa mágica, de que basta crer para que Deus, num piscar de olhos, tudo resolva a nosso favor, caso demonstremos que fazemos por merecer. A dimensão religiosa, muitas vezes, é estruturante para o sujeito e, nesse sentido, é importante a reflexão sobre quais fundamentos religiosos ele se estrutura.

O profeta Miqueias, por exemplo, denuncia a atitude das pessoas que possuem uma falsa segurança religiosa: “E eles se apoiam no Senhor, dizendo: ‘Não está o Senhor em nosso meio? Não virá sobre nós a desgraça!’” (3,11), diz o profeta, fazendo ressoar, em tom crítico, aquilo que dizem esses religiosos, em detrimento da denúncia profética e do convite de conversão. A fé é uma adesão, e não um salvo-conduto de uma vida livre de dificuldades e aflições.

Refletir sobre a profundidade da fé, então, é muito importante. A discussão sobre a religiosidade como estruturante do sujeito passa de modo bastante significativo pelas Ciências das Religiões e deve alcançar a Teologia, de modo crítico. É papel da Teologia ir propondo caminhos pastorais que tornem propícias autênticas experiências de fé. Uma religião com uma teologia substancial é capaz de oferecer caminhos legítimos e responsáveis a seus adeptos, de modo que o serviço espiritual seja bem realizado.

Se, pois, as religiões, e sobretudo o cristianismo que aqui é pauta de nossa reflexão, oferecem boas perspectivas de experiências de aprofundamento da vivência da fé, tão melhor elas realizam sua missão. A fé nos convida a desenvolver melhor nossas potencialidades humanas e nos engaja num comportamento ético comprometido com aquilo que acreditamos.

É urgente um trabalho pastoral que rompa com uma fé em perspectiva mágica, na qual a religiosidade é usada como amuleto. Quem instrumentaliza a fé, vivendo-a a partir daquilo que, aparentemente, ela venha a “servir”, num sentindo utilitarista, perde a chance de viver, radicalmente, uma experiência que enche de significado à vida: não encontra Deus, mas vive iludido em meio às próprias expectativas!


*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com